Crise de autoridade: relembrando um texto de Corção


Em maio de 1968, data bem sugestiva, o engenheiro e escritor católico Gustavo Corção nos regalava com um excelente artigo de jornal sobre a própria essência da autoridade e que pode ser encontrado no livro, A Tempo e Contratempo. O leitor atento que se depara com esse texto capta logo a sua atualidade e se não fosse a datação diria ter sido ele escrito em 2020.

Pois bem, a lição principal desse artigo é a de que “toda a vida moral é polariza por uma obediência ou uma desobediência”. Aos ouvidos modernos acostumados à linguagem da revolta tais palavras soam antiquadas, alheias à própria noção de liberdade.

No entanto, como aponta o mesmo Corção isso só ocorre porque a noção de autoridade tem sido vista como uma coação externa, sendo essa visão, a meu ver, potencializada com as revoluções modernas. O princípio da autoridade nas palavras de Corção está nos “vasos capilares da vida humana”, é algo que nos constitui.

Nesse sentido, eu diria que não há liberdade a não ser quando se obedece uma autoridade legítima e isso começa na nossa própria intimidade. Como dizia Santo Agostinho, a Verdade habita nosso ser, está em nosso íntimo e tanto mais livre é o indivíduo quanto mais se aproxima dessa Verdade que é o próprio Deus.

Assim, a autoridade emana como uma força interna, como um fundamento interior que encontra eco na própria realidade das coisas e a autoridade externa pode ser vista assim como um continuum em relação à autoridade interna que brota da obediência à lei moral inscrita no coração do homem. A fonte dos dois tipos de autoridade é a mesma: Deus.

Na época em que escreveu o texto, Corção presenciava justamente uma crise de autoridade que se manifestava sobremaneira no 'progressismo católico' que minava as relações familiares e o clero católico.

Alguém poderia dizer se tratar de uma percepção enviesada de um escritor católico saudosista, o que seria injusto, mas percepção parecida acerca da crise de autoridade nos descreve Hannah Arendt, que venhamos e convenhamos nada tinha de 'católica saudosista'.

Cinquenta e dois anos depois colhemos os frutos de uma geração de formadores de opinião que praticamente aniquilaram a possibilidade de recorrermos a uma autoridade legítima seja no âmbito político, familiar ou religioso, afinal a base de um novo mundo se erigia no famoso aforismo: “É proibido proibir”.

E foi justamente a ambiguidade carregada por esse princípio que fundamentou a própria realidade social, vide a contracultura dos anos 70, desde então no Ocidente mesmo que não explicitamente em alguns momentos.

A negação mesma de uma autoridade próxima e em última instância de uma autoridade transcendente trouxe consequências que ainda não conseguimos mensurar devidamente. Extrapolando o texto de Corção já conhecendo mais do correr dessa história diria que restam dois caminhos possíveis nessa conjuntura.

De um lado nega-se de vez a possibilidade de qualquer autoridade imperando a desordem, a anarquia, esclarecendo que não se tratar aqui de anarquia como sistema político, mas de um estado de anomia ou de caos social em que as pessoas sentem a ausência de valores capazes de lhes assegurar princípios morais sólidos.

De outro lado abre-se espaço para o autoritarismo onde na ausência ou enfraquecimento de uma autoridade legitimamente fundada em valores e princípios morais impõe-se uma autoridade ilegítima que se impõe por meio da força ou da usurpação do poder.

Ocorre que esses dois caminhos não passam de “duas faces da mesma moeda”, tratando-os de frutos podres da mesma árvore. Na próxima semana compartilharei outro texto a fim de exemplificar esses dois caminhos que brotam da mesma fonte e levam para o mesmo fim.

[ D'Vox ]

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Lino Batista é professor de filosofia, ética e sociologia no ensino medio, membro do Conselho Diretivo da Rede Estadual de Ação pela Família (REAF).

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