Caso Floyd e a crise de uma civilização


O racismo é um fenômeno histórico como demonstrei em texto anterior, 'Racismo e Racialismo', e nega-lo é um desacerto tremendo que depõe contra a documentação histórica e as experiências atuais desse crime.

Sabemos inclusive que o racismo científico encontrou eco em meio a muitos intelectuais nos séculos XIX e XX, e é curioso observar que alguns desses intelectuais sejam tão admirados justamente por aqueles que dizem lutar atualmente contra o racismo.

Com frequência a questão do racismo se reacende e nestas últimas semanas novamente o problema veio à tona graças ao caso George Floyd, em que o policial Derek Chawvin prendeu Floyd no chão de forma cruel não lhe dando condições de respirar. Esse policial que foi responsável por sua morte como atestaram os laudos preliminares foi acusado de racismo e a reação de movimentos aparentemente antirracismo foi imediata.

De fato a cena é triste e lamentável e traz à tona o fato do policial agressor possuir acusações de abusos anteriores. Nesse sentido eu gostaria de levantar duas questões para que meu leitor pensasse: não teria sido a política local omissa em relação ao policial? Será que os alvos dele eram sempre pessoas negras?

Não tenho respostas a essas perguntas, mas acredito que sejam pertinentes, principalmente a segunda já que houve uma verdadeira mobilização internacional baseada na pressuposição de que sim, a motivação do ato policial era o racismo e não uma violência de um homem abusivo, desequilibrado e que estava despreparado para exercer a função de policial.

De minha parte não tenho elementos para fechar a questão, pois envolveria acesso a informações que por enquanto estão restritas ao judiciário local. Fato é que o caso extrapolou uma discussão sobre o preparo policial local para lidar com a contenção de suspeitos e atingiu um patamar de discussão global sobre racismo, minorias e resistências, mas não sou inocente o suficiente para cair nessa “narrativa” e o que menos vemos é discussão, mas o atropelo e a precipitação de jovens ávidos por caçarem os culpados por todos os males do mundo.

E é justamente uma caça às bruxas o que temos visto ser promovido por movimentos como Antifa (contemporâneo) e o Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). E vou ser bem taxativo aqui: isso tudo nada tem a ver com racismo ou reação ao fascismo, mas é a manifestação da anomia e do niilismo que se acentuam cada dia mais no Ocidente. Tais grupos não são democráticos ou se preocupam com discussões sobre o que quer seja, mas simplesmente são grupos reacionários, ou seja, hostis à democracia usando uma capa aparentemente democrática.

O que temos visto nos últimos dias é na verdade um retorno à barbárie, onde busca-se destruir qualquer vestígio da história que seja desagradável ou desfavorável a narrativas que se querem progressistas, num estilo que faria Orwell parecer um romancista ginasiano, há alguns que diria se tratar de um exemplo claro de que a vida sempre pode se sobrepor à ficção.

Nesse ponto alguém poderia me objetar, mas será que não há sinceridade em tais movimentos? Não há nada que possamos tirar de bom deles? Eu diria que sim para as duas perguntas, mas a questão é que entre a intenção e a ação há um abismo.

O que vejo de positivo nessa onda de destruição gratuita e ignorante é que ela expõe um verdadeiro mal estar civilizatório ainda mais acentuado no atual cenário de pandemia do COVID-19. Vemos nesses jovens uma incapacidade de atribuir um sentido último às suas ações, já que tais movimentos anulam a individualidade em nome de reações programadas a estímulos. E há nisso um padrão, infelizmente.

Eles dizem com acerto que vidas negras importam e estão corretos, mas ninguém os institui juízes da história. História que a maioria deles desconhece o que atestam indicadores escolares que demonstram a queda nos conhecimentos dos clássicos literários e do pensamento humano universal.

O que vemos é a vitória do desconstrucionismo, uma visão que nega os valores herdados pela civilização Ocidental propondo uma desconstrução de valores como verdade e bem. Nesse sentido, muitos ficam espantados com o caráter iconoclasta desses novos progressistas, quando na verdade é justamente isso o que propõe uma filosofia que nega fatos e afirma somente interpretações.

Não à toa esses jovens se sintam como os reconstrutores de um novo mundo, portadores de uma nova verdade, de um novo bem, mas o triste é que isso nada tem de novo: é a velha e carcomida alma revolucionária.

[ D'Vox ]

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Lino Batista é professor de filosofia, ética e sociologia no ensino medio, membro do Conselho Diretivo da Rede Estadual de Ação pela Família (REAF).

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