Rui Barbosa, as decisões políticas e a ciência

08.06.2020

 

Tenho recomendado algumas leituras em artigos anteriores e gostaria de fazê-lo novamente com o livro, 'Casa Grande e Senzala', de Gilberto Freyre. É uma obra fundamental para compreender um pouco sobre a formação cultural do Brasil a partir de uma obra extensamente fundamentada. No entanto, apesar da recomendação, meu texto hoje não será sobre ele, mas sobre um evento histórico por ele mencionado.

 

O que li desse evento me causou revolta, a princípio, e agitado xinguei, pois vinha pôr a nu um homem que admiro, muito pelo fato de ter estudado numa escola que carrega seu nome e que desde pequeno eu aprendera a admirar. Passado esse primeiro momento de raiva, passei a raciocinar melhor, não tome decisões com os nervos à flor da pele, e decidi que ele merecia o benefício da dúvida. Fui então fazer uma breve pesquisa e se não passou de todo a desconfiança passei a ver melhor a situação.

 

Os senhores podem estar pensando que me esqueci de dizer quem era e principalmente de que situação se tratava. O nome era o de ninguém menos que Rui Barbosa, o Águia de Haia, e o caso específico era a queima de arquivos referentes à operação de compra e venda de escravos no século XIX. Rui Barbosa era então ministro da Fazenda e mesmo tendo assinado a decisão ela só foi levada à cabo quando Rui Barbosa já havia saído do posto.

 

Confesso que num primeiro momento fiquei muito decepcionado, afinal tais documentos seriam fundamentais para a história do Brasil e para a memória sofrida dos ex-escravos. No entanto, consegui compreender seus motivos já que com tais documentos os antigos proprietários de escravos poderiam requerer indenizações. Com a queima de tais documentos essa possibilidade praticamente se extinguia.

 

Como nos esclarece o professor Arnaldo Godoy, da Universidade de São Paulo, parecia ser de fato sincera a motivação de Rui Barbosa que teria dito que os verdadeiros merecedores de tal indenização seriam os ex-escravos. Sem escusar a classe política pelos males por ela provocada, ou melhor, pelos males provocados pelos maus políticos, é preciso ter em conta que, como no caso de Rui Barbosa, as decisões a serem tomadas não são triviais ou de simples resolução. Há muitos fatores a serem ponderados pelo homem público sendo impossível “agradar a gregos e troianos”. Seria mais fácil desagradar os dois.

 

Atualmente em meio à crise da covid-19 essa dificuldade política se torna ainda maior, principalmente com a inserção de uma importante variável moderna: a Ciência. Entra em jogo sua utilização ideológica, como descrevi em outro artigo, mas também está em cena dimensão da Ciência Moderna que propositalmente não é colocada em público: sua limitação metodológica.

 

A filosofia da ciência e a metodologia científica nos ensinam que as respostas científicas são provisórias e não universais, ou seja, toda teoria científica é refutável e limitada no sentido de nos apresentar um recorte da realidade e não a realidade toda como alguns oportunistas políticos dão a entender para o público, que dada nossa má formação educacional, acaba aceitando.

 

Essa limitação científica é uma dificuldade ao homem público sério, pois ele acaba sendo cobrado efusivamente por uma parcela da mídia que provavelmente reconhece as limitações citadas, mas faz que se fazem de desentendidos para levarem a cabo uma agenda, geralmente progressista, fornecida a priori. Assim cobram a aplicação de uma ciência, em particular, quando sabem que o homem público deve se preocupar com todo o tecido social.

 

Com isso criam-se “narrativas” como a falsa oposição entre salvar a econômica ou salvar vidas, ou com a ainda mais falsa noção, nunca explicada racionalmente, de que haja um absoluto consenso científico sobre como agir politicamente em situações com as que vivemos. É preciso estarmos atentos aos uso politiqueiro que se faz de algumas pautas justas, mas que são deturpadas. É preciso que tenhamos como modelo em termos de prática política mais a Aristóteles e Tomás de Aquino do que Maquiavel e Hobbes.

 

[ D'Vox ]

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Lino Batista é professor de filosofia, ética e sociologia no ensino medio, membro do Conselho Diretivo da Rede Estadual de Ação pela Família (REAF).

 

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