Um pouco de literatura: o heroísmo do perdão


Semana passada foi publicada a primeira parte deste texto em que eu falava sobre literatura e sua capacidade incrível de revelar, de um modo particular, elementos fundamentais da História, além de ser um modo de expressão do real invejável tanto a historiadores quanto a filósofos e também a cientistas sociais.

Falei especificamente do personagem Antônio Marramaque deixando para agora o Dr. Luna, de Josué Montello. Como já disse, o Dr. Luna é um personagem heroico e quem já leu ou for ler o livro, 'Os degraus do paraíso', poderia me tomar como mentiroso dizendo que nada há de heroico nele.

Pois bem, deixe-me justificar essa ideia esperando não banalizar o conceito de heroísmo. Dr. Luna era um médico obstinado que em meio à gripe espanhola que assolava São Luís do Maranhão, terra natal de Montello, não poupava suas forças para acudir os doentes, mesmo com parcos recursos. Diz-nos a história que nascera do Rio Grande do Sul e andara o mundo. Havendo se estabelecido em São Luís entre outros fatores por conta do clima. Era um homem corpulento (gordo) e gostava de deitar-se na rede ouvindo o canto dos pássaros. Amigo íntimo da família de Ernesto, um dos personagens principais do livro, sofria com o drama familiar deles vivido em meio a mágoas e orgulhos que principalmente dona Mariana encarnava, ela que era mãe e dona de casa que a tudo governava com mãos de ferro e que só se agravou com a tragédia ocorrida com seu caçula e mais amado filho, Teobaldo.

Durante a epidemia teve muito trabalho, mas após o seu término uma tarefa ainda mais difícil se manifestou ao médico Luna, a saber, ajudar a família a se pacificar. O heroísmo desse personagem tão importante, ainda que secundário, não estava só na maneira corajosa como enfrentou a gripe, mas no modo gentil que se fazia fiel à sua missão de promover a saúde do corpo por meio da saúde da alma. A edição que possuo da obra traz um prefácio de Tristão de Athayde no qual senti falta de uma palavra que me parece ser a única coisa que faltou àquela família culminando em todas as suas tragédias: o perdão. Perdão que foi a busca incessante de Dr. Luna para aquela família doente e que a meu ver representa melhor seu heroísmo.

É por meio do perdão ou de sua falta que analiso a obra e chamo a atenção não apenas para o Dr. Luna, mas a outros personagens como a empregada Cipriana que sente a falta desse princípio cristão que carece sobretudo à dona Mariana apegada a somente um ou dois elementos da doutrina cristã. E esse princípio vem justamente de um personagem cheio de dúvidas sobre a fé como Dr. Luna e mesmo descrente quanto à Revelação o que nos manifesta o interessante diálogo com o padre Galvão no capítulo XXXVI do livro.

O que move tanto a Luna como a Marramaque é um sentimento de dever e de amor ao próximo que carregam homens honrados, mas que passam esquecidos aos olhos do mundo que não consegue dimensionar a gratuidade que brota de almas simples, ainda que bem formados e eruditos como é o caso do Dr. Luna.

Por experiência posso dizer que o Brasil ainda possui esses homens e mulheres que nos sustentam como nação e que em meio a tantas adversidades honram ainda os valores morais e religiosos mais caros que receberam.

Agradeço aos amigos que leram a primeira parte e que me retornaram dizendo que se sentiram impelidos a lerem o as obras mencionadas. Sinto com isso que minha missão foi cumprida.

[ D'Vox ]

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Lino Batista é professor de filosofia, ética e sociologia no ensino medio, membro do Conselho Diretivo da Rede Estadual de Ação pela Família (REAF).

A pintura é um fragmento de 'Retrato', de Jacob Collins, 2020. O editor imagina assim ao Dr Luna.

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