Um pouco de literatura, pois nem tudo é política

17.05.2020

 

Tenho me convencido cada vez mais que a literatura é a fonte mais viva e quem sabe fiel para a compreensão da história. Recentemente li 'Demian', de Hermann Hesse e com todos os incômodos que o livro traz juntamente a suas heresias não consegui acessar até hoje algo que chegasse a retratar tão bem um período de niilismo, principalmente entre a elite europeia, como foi o período que antecedeu e permeou a Primeira Guerra na Europa.

 

Essa capacidade dos literatos deve deixar historiadores e filósofos com um quê de inveja ou provocar a admiração como foi o caso de Étienne Gilson renomado historiador da filosofia medieval ao ler a biografia de S. Tomás escrita por Gilbert Keith Chesterton.

 

E nesse seara nós brasileiros não ficamos devendo ao restante do mundo, ainda que se objete não termos um prêmio Nobel, que já teria vindo não fosse uma certa politicagem que vez ou outra surge em tais premiações. Você poderia me objetar dizendo que estou sendo ufanista e eu responderia que se tratando de literatura sou nacionalista ferrenho.

 

Para me justificar parcialmente gostaria de recorrer a dois grandes personagens da literatura brasileira não muito conhecidos: Antônio da Silva Marramaque, de Lima Barreto, e Dr. Luna, de Josué Montello. A princípio são personagens coadjuvantes, secundário, que a algumas pessoas podem passar desapercebidos, mas que se revelam figuras fortes, leais e realistas, na melhor acepção do termo.

 

Eles representam um tipo brasileiro que vai além do homem cordial sociologicamente identificado. Representam o tipo honrado e pacato, não pacifista, que doa sua própria vida em benefício dos amigos e, embora solteirões convictos defensores do matrimônio e do amor verdadeiro.

 

Como disse anteriormente, a literatura revela muito da dimensão história e também das agruras da alma humana, mas indo além e me direcionando aos personagens mencionados revelam o que a alma tem de sublime e bom. Posso estar exagerando tais características nos personagens que citei, mas dou-me a mim mesmo, por hora, a licença concedida aos poetas para usar de hipérboles e outras recursos retóricos.

 

Para não privilegiar ninguém vou usar um critério cronológico começando por Marramaque que aparece na obra mais antiga, a saber, 'Clara dos Anjos' de Lima Barreto. Nas penas de Barreto, Marramaque havia sido uma espécime de “boêmio literato” dos fins do século XIX, mas que já havia visto seus tempos de glória, inclusive políticas, passarem estando no alto da história retratada no livro já passando da meia idade carregando consigo uma deficiência que lhe atrapalhava os movimentos devido a dois derrames sofridos.

 

Com sua visão repleta de um certo idealismo político é um dos únicos que consegue ver a realidade de um aproveitador que se aproxima de sua afilhada Clara, filha de seu amigo Joaquim. Com um vigor de espírito que supera sua limitação física permanece impassível frente ao malfeitor o que - segue um spoiler - acaba causando sua morte.

 

Já faz muito tempo que li essa história e é interessante como essa figura literária me marcou, pois seguiu até o fim um compromisso firmado como amigo e padrinho mesmo não tendo recebido a devida honra por isso. O que mostra como já diziam os filósofos gregos clássicos que a honra não deve ser medida pelas honrarias externas. E mais do que isso, e aqui não me lembro da religiosidade de Marramaque, a medida da verdadeira honra é dada por Deus.

 

Havia dito que ele, como o Dr. Luna, representam um tipo de homem brasileiro honrado e pacato que são cada vez mais raros e ridicularizados por diversas razões, mas que sobrevivem na alma do brasileiro e quando menos se espera surge como que do nada, mas na verdade não é um acaso. É algo do nosso ethos que apesar de mudando constantemente ainda valoriza elementos como a coragem e a doação como vimos num mendigo que em 2015 deu sua vida para salvar uma moça mantida refém.

 

O figura do Dr. Luna, personagem de 'Os degraus do Paraíso' também também heróica e profundamente brasileira, a deixamos para a próxima semana, neste mesmo espacio.

 

[ D'Vox ]

____

Lino Batista é professor de filosofia, ética e sociologia no ensino medio, membro do Conselho Diretivo da Rede Estadual de Ação pela Família (REAF).

 

A pintura é 'Retrato de John Carrasco', de Steve Foster, 2020. O editor imagina assim a Marramaque.

 

Please reload

Quando o remédio vira veneno

Gobierno y partido oficial hacia el...

1/15
Please reload

Términos del Servicio | Política de Privacidad

CR| opn: