Fake News: um fenômeno atual?

08.05.2020

 

Nos últimos anos percebemos a popularização do termo 'fake news' que como diz o provérbio “está na boca do povo”. Ao redor do mundo o tema tem sido discutido veementemente e nisso o Brasil não ficou para trás. Nas últimas eleições acusações partiram de todos os lados e como era de se esperar o tema foi parar no Congresso, mas precisamente virou objeto de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que muito provavelmente terminará em pizza, haja vista a própria comissão ter caído nos ardis do que ela mesmo denunciava.

 

Apesar de todos os imbróglios relacionados ao âmbito da política profissional quanto às fake news' o que mais preocupa nãos são esses espetáculos midiáticos, como a própria CPMI aqui mencionada, mas o que pode resultar como medida de combate às “notícias falsas”. Obviamente notícias falsas são muito perniciosas e prejudiciais às pessoas que precisam tomar decisões baseadas nas informações que recebem. No entanto, não é necessário muito esforço por parte de pessoas honestas para superarem a mentira e alcançarem a verdade factual, a não ser que haja impedimentos de outra ordem como veremos. O problema mais grave a meu ver se divide em dois, a saber, a 'desinformação' e a forma de combate ao fenômeno das 'fake news'.

 

A 'desinformação' é uma técnica de manipulação consciente de dados ou fatos em vista a conseguir algum objetivo nem sempre tão claro ao leitor desavisado que, por isso, toma muitas vezes o ato de 'desinformar' como um desvio inconsciente e inocente da verdade ou, o que ocorre na maioria das vezes, toma a mentira por verdade pela sua excessiva repetição ou por ser referendada por autoridades aparentemente idôneas e 'isentas'. Por trabalhar com sutilezas e meias verdades tal tática é muito mais letal que as 'fake news'. Esse processo ocorre objetivamente com a transmissão de notícias com a ausência deliberada de um fator relevante e conhecido por quem divulga a informação, mas que tem interesse em que a notícia seja interpretada por um viés determinado, essa manipulação é velada e encoberta com ares de verdade objetiva.

 

Apresentar-vos-ei um exemplo quase imperceptível para muitos e que parece tolo. Trata-se da teoria do Big Bang. Uma teoria muito respeitada atualmente, mas que a princípio chegou a ser ridicularizada como atesta a origem de seu nome que posso contar depois. Criou-se uma mentalidade em torno à teoria, por meio de divulgadores de ciência junto a leigos, de que ela estaria em total contradição com a cosmologia cristã. Nesse caso, um 'detalhe' ficou escondido, a saber, o fato de que o primeiro a formular matematicamente essa tese, o eminente cientista e matemático Georges Lemaître, era sacerdote católico e que a pesquisa empreendida por ele não depunha contra sua fé. Aqui a ocultação proposital da condição de sacerdote do cientista configura a tentativa de 'desinformação'.

 

O segundo problema que mais preocupa por hora são as formas que têm sido propostas para o combate às notícias falsas, que se forem levadas a cabo constituem ameaças reais às liberdades fundamentais. Muitas delas poderão ser efetivadas como a quebra da criptografia ponta a ponta de ferramentas como o WhatsApp sem a necessidade de mandato judicial, que é falada pelos cantos, mas que em breve se tornará mais comum. Além de outras medidas mais sutis como a tentativa da criminalização da opinião fazendo na prática que uma opinião seja tratada como uma informação objetiva ou o impedimento de que pessoas exerçam o jornalismo sem diploma. O problema é que, em nome de uma causa aparentemente nobre, se restrinja progressiva e injustamente a liberdade de se expressar. É bom deixar claro que a liberdade de expressão não é um direito absoluto, devendo-se resguardar as condições para que não se use tal liberdade para escusar-se de crimes cometidos.

 

Aqui finalizo meu texto recorrendo ao título onde questiono se o fake news' é um fenômeno atual. Respondo que não, mas deveria corrigir aqui a pergunta. Seriam as estratégias de combate a esse problema, atuais? E novamente responderia não recorrendo aos espetáculos de expurgo comuns em regimes como o soviético onde notícias falsas e falsos complôs eram espalhados pelo regime para em seguida acusar desafetos de o terem feito. Assim promoviam acusações e punições contra os supostos noticiadores, tendo justificativas plantadas para retirarem cada vez mais liberdades. Espero sinceramente que em nome do combate às notícias falsas, que é algo em si nobre, não tenhamos uma nova forma de supressão das consciências.

 

[ D'Vox ]

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Lino Batista é professor de filosofia, ética e sociologia no ensino medio, membro do Conselho Diretivo da Rede Estadual de Ação pela Família (REAF).

 

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