Aprender a morrer é aprender a viver

09.04.2020

 

O filósofo ateniense Sócrates dizia que filosofar é aprender a morrer. Isso não significa que a morte supere a vida, pelo contrário, a morte é realidade inexorável, mas a vida ao mesmo tempo que é frágil é mais rica em possibilidades, gera força para se manter e a ela mais aspiramos quanto mais a temos. Então filosofar como preparação para a morte só poderia significar filosofar para aprender a viver. E viver de maneira refletida, logo propriamente humana.

 

Durante muitas eras as mais variadas culturas souberam, cada uma a seu modo, lidar com a morte e como exemplo disso citamos acima um grego que para muitos na época, entre os próprios gregos, era considerado o melhor deles. Tanto não temeu a morte que a abraçou quando poderia ter fugido, pois os valores que o impulsionavam eram maiores que a própria morte. Sou professor, e quando falo a alguns jovens sobre isso muitos encaram com desdém a escolha de quem poderia ter ido embora e vivido confortavelmente mais um pouco.

 

Sobre o modo de lidar com a realidade contígua da morte sem, no entanto, paralisar-se diante dela vendo-a como inerente à nossa existência poderíamos também citar povos ainda mais remotos que enterravam seus mortos em posição fetal como se a morte fosse o renascimento para outra vida. E os exemplos se multiplicariam, pois a morte na maior parte da história humana era uma vizinha cheia de mistérios e quase insondável, mas ainda assim uma vizinha poderosa a quem você via com certa frequência e embora desagradável, conhecida. Ela era terrível, mas próxima. E parecia intransponível até que o Homem por excelência a desafiou e ganhou, e desde então para quem viveu com essa certeza a morte apesar de permanecer medonha não tinha mais tanto poder.

 

Acontece que nosso mundo moderno ou pós-moderno, considere como quiser, pensou que com sua técnica avançada teria superado a vizinha se mudando de casa e tentando de todas as formas negar a velhice que a seu ver lembra a morte, num eterno ciclo hedonista que não permite refletir devidamente sobre a morte.

 

E o ser humano que vive neste mundo apostou demais em suas próprias forças e hoje quando vislumbra a morte de soslaio numa fresta da janela ou de relance pela rua fica amedrontado, pois diferente da sabedoria milenar expressa por Sócrates e principalmente pelo cristianismo, o homem moderno nunca se preparou para a morte, apenas para a vida e está despreparado espiritualmente e psicologicamente para lidar com a vizinha morte.

 

Desse modo, muitos jovens nascidos e criados nessa mentalidade moderna não conseguem compreender alguns idosos que no tempo de isolamento social em que vivemos estão menos preocupados e até saem pelas ruas. Para esses idosos a morte não é o fim e a velhice lhes tirou algumas preocupações, tanto que para eles, vale antes viver como viveram e toparem com a morte do que adiar esse encontro e perderem a chance de viver mais, o que para muitos seria apenas sobreviver. Quer você concorde ou não com eles, a questão essencial permanece, e se torna mais atual no contexto da pandemia que estamos padecendo: como nos preparamos para a morte? Vivendo ou sobrevivendo?

 

[ D'Vox ]

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Lino Batista é professor de filosofia, ética e sociologia no ensino medio, membro do Conselho Diretivo da Rede Estadual de Ação pela Família (REAF).

 

A imagem que abre o texto é 'O Sepultamento do Conde Orgaz', de El Greco, 1587, na igreja de São Tomé, Toledo, Espanha.

 

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