Globalismo e 'unidade do mundo': a imanentização da esperança


Roma | O ocaso da ideia de representação política é uma realidade incontestável, hoje em dia, em praticamente todos os países ocidentais. A perda absoluta da credibilidade popular na classe política é uma situação evidente, com exceções pontuais.

Um dos sintomas deste descrédito não é claramente visível dentro dos próprios países, mas o é se observarmos do ângulo exterior: tem o seu princípio causal no lado de fora. Vem do âmbito externo o motivo pelo qual estamos perdendo, a cada dia, a noção concreta do que é uma estrutura republicana organizada segundo a utilidade comum.

A desconfiguração das unidades políticas locais e a despersonalização das figuras representativas são motivadas, em grande medida, por razões determinadas pelos próprios políticos como tais, imbuídos em práticas de corrupção sistêmica. Muitos deles dão motivos de sobra para que lhes imputemos as mais sórdidas considerações.

Ainda assim, mesmo ante um cenário tão fétido e inaceitável, há uma motivação externa, que não depende somente desta mesma classe representativa. Dentre os fenômenos do globalismo e da globalização como um todo, aflora o da fluidez da ideia de representação, entendida aqui como a substituição dos agentes por modelos abstratos, dos líderes de carne e osso por organismos tecnológicos, dos políticos locais por estruturas supranacionais.

A confiança nestas estruturas é justificada? Não seria o caso de que, na verdade, estamos aprisionados por nosso imaginário de tal modo que nossa razão é crescentemente aniquilada pela proibição de indagar? Porque a razão é necessariamente apodítica, não desistimos de nós mesmos quando aceitamos inertes a vitória do encarceramento cognitivo provocado pela reificação do lúdico e da infantilização em massa?

Não estamos sucumbindo como civilização, frente à impotência para transformar este estado-de-coisas que nos foi imposto, de fora, por uma imagem de comunidade humana que em nada se aproxima das mais altas aspirações do espírito civilizatório, manifestas, por exemplo, pelas obras de arte, pela literatura clássica e pela filosofia? Não padecemos, portanto, de um grau tal de incapacidade que nos subjuga a um patamar sub-humano, cuja força é medida pelo medo de perguntar acerca do que, ou de quem, realmente, exerce o 'poder' por trás destas mesmas estruturas?

Em entrevista à Intelligonews, concedida em 17 de janeiro de 2017, Massimo Cacciari pontua que “a globalização não faliu, o que faliu foi o modo utilizado pelos governos dos Estados ocidentais pra geri-la”. A globalização não faliu. Então, em qual chave devemos compreendê-la?

O globalismo implica na “unidade do mundo”. A leitura que é lançada sobre este fato, que o interpreta como fenômeno de nosso tempo, normalmente encarna a perspectiva de que o mundo é visto e pensado como 'unidade'. Logo, os centros decisórios nacionais e supranacionais convergem para a planificação de plataformas sociais e políticas econômicas, como, por exemplo, as que são concebidas pelo Banco Central Europeu, um banco privado, diga-se de passagem, que, com seu poder postulatório, define o grau 'real' de participação dos Estados europeus sobre os comandos da União Europeia.

Perante a incapacidade dos governos locais de articular as formas e os modos de existência política na era global, a planificação em escala mundial caminha a passos largos para o desmantelamento da ideia clássica de soberania como a conhecemos desde o século XVI. Na teoria política clássica dos séculos precedentes, na qual os governos locais ainda continuam a embasar seus processos decisórios, a legitimidade popular ocupa um lugar de proeminência, em especial nas teorias da democracia e da representação.

Hoje, porém, a democracia é, empiricamente, uma realidade distante: o que os governos dos Estados nacionais buscam, na realidade, não é o consentimento do próprio povo para as políticas que adotam, mas o “reconhecimento da comunidade global” sobre o sucesso de suas pretensões, o que mostra que: (i) os governos locais transferiram o centro da própria legitimidade para fora, para o exterior, para a aprovação de “quem de fato governa o mundo”; (ii) que o que chamamos de "comunidade global” não é uma comunidade, mas uma grande estrutura caracterizada pela dissonância entre as palavras e as coisas, isto é, entre os ideais de democracia, liberdade e igualdade de um lado, e a realidade de um grupo poderoso, que não aparece e que exerce o poder sem nenhum consentimento popular, de outro.

É uma 'única' a cosmovisão que sustenta esta expansão do poder não aparente de uma classe dirigente global: um metacapitalismo, com meio e fim definidos. O meio é a técnica, a serviço de uma elite que domina os processos, os mercados e os governos; o fim, obviamente, é a extensão do domínio para além dos próprios mercados, angariando ao seu favor os governos nacionais, as culturas locais e as mentes dos indivíduos. Uma política econômica distante dos ideais clássicos do liberalismo e do socialismo, ideologias pensadas na estrutura tradicional do Estado e do Mercado.

A realidade hoje é bem outra. Uma elite poderosa apropria-se dos Estados e os submete ao seu império. Um metacapitalismo em que princípios caros ao livre-mercado, como livre iniciativa e liberdade de concorrência, são soterrados em prol das multinacionais e das megacorporações, que com os Estados e os centros globais de poder conservam tipos quase 'enigmáticos' de relações cooperativas.

Estamos a ver a secularização da esperança.

O novo sistema metacapitalista, sistema que apresenta um novo paradigma de bem-estar muito diferente daquele defendido pelo Estado social do século XX, vem sendo acusado de provocar o fortalecimento das estruturas políticas globais em detrimento das repúblicas e das comunidades políticas locais. Além disso, o novo modelo econômico proposto, menos próximo do ser humano real e mais próximo dos sistemas tecnológicos e dos operadores virtuais, tem um contato contíguo com uma nova antropologia, uma concepção artificial do que é o ser humano: um novo humanismo.

Pensadores autênticos, como o próprio Cacciari já citado, como também Carl Schmitt, Donoso Cortes, Mario Tronti, Remi Brague, Axel Honnet, Jurgen Habermas, Joseph Ratzinger, entre outros, tomam o metacapitalismo em consonância com esta ideia de civilização que inevitavelmente assiste impávida ao fim da própria liberdade, observando sem muita atenção a autoescravidão mediante o distanciamento progressivo dos centros decisórios.

Não sabemos mais quem manda em nosso dia-dia, quem define como devemos pagar as contas ou o quanto devemos pagar; estamos de mãos atadas em nome da 'democracia', mas ela de fato está morta em prol de um sistema global cada vez mais “eficiente” e menos 'comunitário'.

Um novo Leviatã ainda mais letal do que os Estados burocráticos centralizados se ergue diante de nossos olhos, e já não somos capazes de abdicar de seu reino: a internet, as redes sociais, a vulgaridade do nosso cotidiano, tudo isso já desempenha uma força em nosso horizonte que exige, para nossa libertação, um ato hercúleo de desprendimento e fortaleza, em suma, uma fuga 'deste' mundo.

Na parábola do senhor e do escravo apresentada por Hegel na Fenomenologia do Espírito, a dialética só pode servir de método iluminante por meio do qual o espírito conhece a si mesmo se, e somente se a comunicação entre o senhorio e a servidão for exauriente. Na dialética e na comunicação subjaz o domínio no qual a consciência adquire o sentido e a determinação de si no tempo e na história.

Quando a comunicação é inflacionada e a verdadeira informação é obscurecida em meio à proliferação de imagens e narrativas distorcidas quanto ao real significado desta mesma informação, nos deparamos com a dissolução da certeza, cuja radicalidade nos leva à paranoia e à desconfiança quanto a nossa própria capacidade para captar os significados involucrados por trás da indústria dos mass media. Na profusão de informações, a comunicação real, a verdade por trás do teatro das massas, é ocultada dos olhos do mundo concreto.

Dentro disso, indagamos: o que há na retaguarda da União Europeia? O que no fundo sustenta todo o aparato burocrático e tecnocrático de Bruxelas? Tem esta estrutura uma preocupação sincera com o bem comum do continente e com as particularidades de cada Estado-membro?

A União Europeia é uma estrutura oligárquica, absolutamente intransponível e crescentemente inescapável para as nações da Europa. É seguramente o maior exemplo na história moderna de uma oligarquia metacapitalista, que domina os Estados não somente pelas políticas 'globais' que implementa, mas, especialmente, porque detém o monopólio da moeda, o fator decisivo de sustento das relações econômicas e sociais.

Uma organização chefiada por cinco lideranças com estatura de presidência. Cinco. Presidente do Conselho Europeu, Charles Michel; presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen; presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde; secretário-geral do Parlamento Europeu, Klaus Welle; secretário-geral da Comissão Europeia, Martin Selmayr. Nesta estrutura específica, nos perguntamos: quem está por trás disso? Quem são estas pessoas? Quem as colocou no poder para decidir em nome de milhões de italianos e europeus em geral? Que 'legitimidade' possuem? “Decipit frons prima multos”. [ 1 ]

A simples aceitação pacífica deste estado-de-coisas, sem nenhuma crítica de parte dos mass media europeus, já mostra o estado letárgico no qual estamos. Observamos nesta 'pacífica' morbidade cognitiva a diluição de todos os padrões, de todas as finalidades que projetávamos poucas gerações atrás para florescermos como seres racionais.

Evitar o prazer e preferir a dor não é uma loucura: é o princípio que levou o gênero humano a construir a civilização, a exigência mais elementar do que entendemos por virtude: “magnos homines virtute metimur, non fortuna”. [ 2 ]

A transposição da economia à vida civil, da matéria ao espírito, da produção à razão, da necessidade à liberdade, expressa o topos, o modelo ideal e apropriado de autotranscendência, a característica imanente à nossa condição. Somos seres em alteridade. O esforço, a superação de nossos limites, a conquista das virtudes e dos bens, a excelência no pensar e no agir, despontam como cadinhos do que entendemos por comportamentos de um ser educado e civilizado.

Hoje, porém, tudo isto é prescindível. Na sociedade atual, a animalidade soergueu-se ao patamar de modo de vida proeminente, ocupando um lugar quase integral na vida dos indivíduos. A reificação do prazer, a vitória do gosto sobre o dever, a expulsão da razão do lugar ao qual chamamos de liberdade, constituem-se como fenômenos típicos da (des)civilização animal, conduzida de forma gradativa pela forma mentis padrão, propagada pelos media e desejada pelo establishment metacapitalista.

A imanentização da esperança nos impôs uma nova forma de ditadura: a de sermos para sempre o que somos no presente. Na barbárie em que vivemos, a marca característica é a capitalização líquida da vida: os gostos, os prazeres, os bens com os quais preenchemos os nossos apetites imediatos e diários desempenham uma função ainda mais mortífera do que aquela para a qual foram destinados, a saber, a de ocultar de nossa mente o que de fato somos, transformando-nos em um modelo reducionista de sujeito, o homo faber, incapaz de tomar consciência de si e escravizado pelo produto da técnica da industrialização em massa.

Consumimos, trabalhamos, e o fruto de nosso esforço é deslocado para fora de nós, tornando-nos escravos de coisas, e não de valores. Nunca na história humana a escravidão foi tão elevada: as coisas exercem sobre nós um domínio nunca antes imaginado; o produto da técnica industrial é o “nosso senhor”, o dominador de nossos gostos, imagens e sonhos.

Ir a um shopping é como ir a uma Igreja: ali somos alimentados pelos sonhos que povoam o nosso imaginário social. Estamos a ver, talvez, o maior processo de emburrecimento da história da humanidade: a capitalização completa não apenas da vida, mas, sobretudo, do sentido da vida. Nosso horizonte de existência não pressupõe mais o hiato entre o presente e o futuro, mas prescinde do eterno: vivemos em nosso cotidiano a fusão entre o agora e o amanhã. Nas palavras do grande Horácio: “debemur morti nos nostraque”! [ 3 ]

No antigo equilíbrio entre a fé e a esperança, víamos o desafio perene da ordem política: o 'reconhecimento' de que os políticos, os líderes reais e concretos, eram imperfeitos. A (i) proximidade com a liderança, a (ii) experiência concreta da representação e o (iii) vínculo oral e físico entre o representante e o representado, este conjunto de postulados caracterizava as unidades políticas do período precedente ao Estado. A constituição das cidades pressupunha este modelo de concórdia social.

Mesmo ante a imperfeição do gênero humano, as instituições locais expressavam uma imagem da ordem, um protótipo da eudaimonia: o mos maiorum, diz Cicero, em alusão aos costumes eternos da res publica. Restava-nos, então, um espaço para a confiança “não cega” nas lideranças, e a esperança de que não fracassassem em perseguir os fins da ordem civil. Hoje, a morte da esperança lançou sobre a fé secular uma dúplice consideração:

1. A de que a fé de nossos dias é irracional, sem critérios, sobretudo porque jogada sobre estruturas frígidas e desumanas. Não confiamos mais no que não vemos, mas no que não sabemos: bancos, estruturas tecnológicas, alimentos industrializados, etc. Colocamos a nossa sobrevivência sob a guarda destas estruturas, sem ter a menor ideia do que ou de quem as dirige e com que objetivo o faz. A biopolítica transfigura-se, diante de nós, em modo comum de vida, no qual rebaixamos a nossa condição à dimensão animal, para então sermos governados por agentes invisíveis, desconhecidos, mas que no atual sistema de produção em larga escala possuem in totum uma legitimidade per se, inconteste;

2. A fé irracional em questão nos conduz – a nós, portadores desta fé – a ter sobre nós mesmos uma imagem deslocada de quem e do que na verdade somos. O nosso eu real é velado para dar vazão à imagem que este mesmo sistema lança sobre o que somos: o eu imaginário ocupa o lugar de destaque na sociedade biopolítica – se sou devedor segundo o sistema bancário, não sou, para os propósitos do sistema frígido em questão, um ser humano real de carne e osso que possa ter recebido uma carta de demissão injustificada, mas um perverso devedor que não merece nenhum crédito na praça. Ou ainda: confia-se mais na imagem que alguém possa projetar no facebook ou no instagram do que no ser pessoal concreto, no humano de fato, na real condição de existência deste alguém que é julgado previamente por um tribunal implacável: a “internet das imagens e das coisas”.

Há uma articulação gestada no seio da sociedade líquida: aquela sucedida entre a técnica moderna e a unidade do mundo. A técnica moderna produz bens para a circulação dentro de um espaço supostamente ilimitado, o mundo, cujo domínio é regulado e conquistado por instrumentos técnicos capazes de: a) controlar as relações econômicas (bancos, por exemplo); b) impor a ameaça e a cultura do temor, com o propósito de comercializar armas de destruição em massa entre as nações, ou ainda de detê-las para impor o respeito no cenário global; c) medir a capacidade das burocracias em “estabelecer” condições e limites para o livre-arbítrio, isto é, mediar e coordenar o poder e o domínio concreto dos seres humanos sobre a própria capacidade de deliberar sobre o que realizam e o porquê o fazem (vejamos, por exemplo, a interferência dos sistemas fiscais dos Estados nacionais sobre transações econômicas entre indivíduos na nova 'civilização' globalista, ou então o irrompimento de instrumentos de controle sobre o movimento dos corpos no novo cenário de Estado de exceção por ocasião do coronavírus, com aplicativos capazes de monitorar deslocamentos); d) ofertar a salvação mediante a produção de bens medicinais alcançados pela indústria farmacêutica e, em última análise, pela ciência experimental. Note-se que até mesmo esta “imagem de facebook” pode ser consumada por meio de clínicas de 'estética' e produtos cosméticos elementares.

Na leitura atenta destes quatro quesitos observamos um fio condutor: atrás do globalismo, há uma técnica capaz de estender o domínio daqueles que controlam as estruturas frias e impassíveis da nova 'ordem' mundial. Uma classe dirigente, uma elite financeira diretamente interessada em concretizar esta unidade tecnocrática com o intuito de conservar sua posição privilegiada no mapa das relações político-econômicas.

O fomento da ideologia do progresso é o princípio diretor, a razão que sustenta o desenho deste novo conceito de liberdade: o ser humano é livre porque, livremente, decide entregar sua capacidade deliberativa para outrem, para um desconhecido – o 'sistema', tomado aqui como o demiurgo de nossos tempos.

Em L´arresto di Julian Assange, artigo publicado em sua página web, Giorgio Agamben nos oferece um exemplo característico deste novo cenário totalitário. Diz o filósofo italiano: “encontrei Assange há dois anos na Embaixada do Equador em Londres. Relembrando o quanto me contou durante o nosso encontro acredito ter condições de entender o motivo de ter sido preso. Assange me disse que estava pesquisando sobre a medida em curso que o Google estava preparando para o uso das informações que possui sobre toda a humanidade. Se tratava, segundo ele, de vender para as seguradoras e os serviços secretos dados de seus interesses, os desejos, os consumos, os estados de saúde, as leituras, em suma, cada aspecto da vida particular de milhões de indivíduos”.

Guiglelmo Ferrero, ao falar da Terza Roma em seu Le Due Verità, já alertava sobre o emprego das palavras para promover a dilatação da legitimidade. Palavras como liberdade, democracia e igualdade despertam no pavimento cognitivo dos seres humanos um estado mental autossatisfatório, que implica na convicção pura e simples de que o poder está domesticado pelos valores que estas palavras evocam.

Todavia, o que se percebe é justo o contrário: o emprego dessas palavras pode provocar o distanciamento empírico entre quem governa e quem é governado, acarretando o crescimento exponencial do poder sobre toda a coletividade de indivíduos, ao ponto de torná-lo – o poder- desconhecido para as gerações seguintes.

No modelo em questão, não há nem socialismo nem liberalismo: há, sim, um modelo sui generis. Nas palavras de Diego Fusaro, pensador italiano de tendência gramsciana, a antiga luta de classes sucumbe e assiste impassível à edificação de uma nova classe, a saber, a elite financeira e metacapitalista, capaz de destronar tanto burgueses como proletários.

O mundo local passa a ser pensado e articulado não como espaço republicano, mas como parte do 'mundo', um mundo sujeito ao domínio de estruturas e de uma casta financeira metacapitalista que incorpora os governos dentro de si e oferece soluções sempre vantajosas para si e para o fortalecimento desta estrutura invisível e desprovida de intencionalidade.

Na nova sociedade líquida, ter fé nesta estrutura não é uma reação anormal, mas um modo de sobrevivência. Uma forma absolutamente justificada de relacionar-se com os outros, dando publicidade às próprias inclinações para que robôs possam metrificar e parametrizar os comportamentos virtuais, encontrando lugares de oportunidade em nossas consciências, para que produtos e bens em geral encontrem um solo fértil para o consumo e a idolatria das coisas fabricadas.

O que se poderá dizer então quando os próprios comportamentos como tais, os movimentos dos corpos segundo a direção de um controle total e quase onisciente, constituírem o único modo de vida possível, fora do qual não haja mais nenhuma outra modalidade de existência humana? Quando, enfim, a tecnologia atingir o sonho futurista de controlar toda a humanidade em todos os momentos e em todos os seus deslocamentos?

Neste novo mundo, 'admirável', a autointerpretação é vista como uma distorção distópica: as estruturas lançam uma imagem assaz inverídica do que é o mundo para conduzir o próprio 'mundo' à loucura. A ter, de si, uma consciência que em nada corresponde à realidade. A elite metacapitalista é já um salto, se compararmos com o conceito clássico de classe dirigente. Para esta nova classe, o domínio econômico não é mais visto como independente do domínio social, senão que o engloba.

A política, a estética, até mesmo a religião são incorporadas neste intento, que atravessa fronteiras mediante o emprego de um método altamente eficaz e, ao mesmo tempo, letal para a humanidade: o método de fazê-la crer que é o que não é e que não é o que é. Eis o estado-de-coisas de nossos dias: a humanidade planificada sob o governo real das estruturas dos bancos, dos mass media, dos proprietários de plataformas digitais e de grandes multinacionais apoiadas por governos, em suma, da nova classe dirigente que jaz por detrás destas mesmas estruturas.

O grande problema, então, não é o fato de que tais estruturas pudessem existir como tais, em um ambiente de livre-mercado e sem qualquer interferência governamental sobre esta mesma existência, ou mesmo sujeitas à regulação democrática, mas a situação concreta e atual de que os mesmos governos dos Estados favorecem estas estruturas em detrimento de seus cidadãos e da economia de seus países. Do velho axioma do Direito de que todos são iguais perante a lei, constata-se em nosso tempo uma nova e estranha ideia de isonomia: alguns são mais iguais do que outros.

Nada pode ser tão destrutivo para o ser humano do que deter um poder extraordinário para governar a si mesmo sem, no entanto, ter capacidade para tal. Nesta ocasião, a liberdade torna a vida insuportável, exigindo que o agente tome uma decisão: ou carrega o peso que a responsabilidade traz, ou então abre mão desta liberdade, entregando-a passivamente a outro.

Nesta civilização artificial, porém, a situação é ainda mais agravada: os detentores da informação oficial querem fazer crer que cada um dispõe deste poder ilimitado; mas na realidade, não há mais nenhum poder nos indivíduos. A liberdade de decidir lhes foi suprimida aos poucos, sem que eles notassem esta marcha triunfante que percorreram rumo à escravidão.

O que chamamos liberdade hoje é um 'presente', dado por estas mesmas estruturas, mediante empréstimos, vantagens, benefícios, prêmios e imagens competitivas no espaço virtual. Confere-se a alguém a crença de que é mais livre do que realmente é: o melhor meio de estabilizar o servilismo através do roubo da consciência de si, aqui substituída por aquela mesma fé irracional da qual falávamos. Uma multidão sem consciência de si, sem ciência daquilo que está, de fato, no subterfúgio de sua própria vontade.

O 'querer' apoia-se em um fundamento anterior: normalmente, queremos algo porque conhecemos o objeto do que queremos; quero algo porque o conheço. A vontade é, sob certo aspecto, movida ao objeto. Os objetos, então, são dados para que os seres humanos, os animais lúdicos, possam exercer a vontade sem, no entanto, ter capacidade de dominá-la. Assim, abre-se um paradoxo: quero algo sem poder não desejá-lo.

Falando sobre os tempos difíceis que estamos vivendo, nos diz Remi Brague: “A ideia de progresso é organicamente conexa à historicização do passado: é necessário deixar o passado fechado em si mesmo, imobilizá-lo em uma memória, de modo que o progresso possa provar sua própria realidade medindo a distância que percorreu (…). Tenhamos presente de não ter nada que aprender com uma fonte clássica, e de consequência mais nada a ensinar a uma barbárie” (Il Futuro Dell´Occidente, 2016).

[ D'Vox ]

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Marcus Boeira é professor visitante na Pontificia Università Gregoriana, em Roma, professor de Lógica e Filosofia do Direito na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Rio Grande do Sul (UFRGS) e doutor pela Universidade de São Paulo (USP).

Nota:

[1] A primeira impressão engana a muitos.

[2] Os grandes homens não são medidos pela “fortuna”, mas pela virtude.

[3] Estamos destinados à morte; nós e nossos bens.

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