Villa-Lobos: o homem que, inspirado por Bach, não desistiu do seu povo

29.03.2020

 

Ítaca | Março é o mês nacional da música clássica. No Brasil, comemora-se o Dia Nacional da Música Clássica em 5 de março por referência ao dia do nascimento do compositor e maestro Heitor Villa-Lobos, maior símbolo da música erudita do Brasil. Também em março, dia 22, comemora-se o nascimento de uma das mais importantes influências musicais de Villa-Lobos, o compositor alemão Johann Sebastian Bach, um dos maiores nomes da música mundial a quem o brasileiro homenageou com suas famosas Bachianas Brasileiras.

 

Desde a infância, Villa Lobos (1887-1959), nascido no Rio de Janeiro, teve contato com melodias e instrumentos. Agradavam-lhe os sons cotidianos da natureza e o menino divertia-se solfejando a melodia dos trenzinhos de brinquedo, sua paixão. Era tanta a fixação, que ganhara o apelido de 'Tuhu', em referência à onomatopeia predileta das suas brincadeiras infantis. Em reuniões familiares Heitor aprendeu com seu pai a tocar viola e se apaixonou pela música de Johan Sebastian Bach, quando ouviu Prelúdios e Fugas do Cravo Bem Temperado executado por sua tia.

 

Do interesse pela capoeira, durante a adolescência, surgiu também o amor pelos ritmos populares brasileiros e seus múltiplos instrumentos musicais. Já na juventude frequentou rodas de 'Choros' e viajou por todo Brasil para conhecer diferentes ritmos e tradições que, mais tarde, usaria dentro de composições eruditas. Foi nesse período em que passeava pelo interior de São Paulo que nasceu sua obra das mais populares, o Trem do Caipira, parte da Bachiana nº2.

 

 

Começou a vida profissional em 1915 como instrumentista e fez suas primeiras composições aos 19 anos. Participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e, em seguida, passou uma temporada na Europa. Ao longo de sua carreira, recebeu 24 títulos na França, foi Membro da Academia de Belas Artes em Nova York, onde recebeu uma série de homenagens. Fundou em 1945 a Academia Brasileira de Música e dela foi o primeiro presidente.

 

Villa-Lobos tornou-se um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos, dando à nossa música erudita os sons típicos da brasilidade. Com cerca de mil obras, entre cirandas, choros, sinfonias, música de câmara, ópera, dentre outros, Heitor é mesmo conhecido pelas Bachianas Brasileiras, composições populares seguindo os modelos do alemão que ele tanto admirava, Sebastian Bach.

 

Percebendo as semelhanças melódicas, harmônicas e contrapontísticas entre a música de Bach e a música popular brasileira, Villa-Lobos considerava o alemão fonte de toda musicalidade erudita e folclórica, como escreveu em 1947:

 

Bachianas Brasileiras – título de um gênero de composição musical criado de 1930 a 1945 para homenagear o grande gênio John Sebastian Bach. As Bachianas Brasileiras, tem Bach considerado como fonte folclórica universal, rica e profunda, com todos os materiais sonoros populares de todos os países, intermediária de todos os povos.”

 

Sabe-se que a importância de Villa Lobos para a educação musical no Brasil é imensurável. Foi ele que, nomeado Diretor da Superintendência de Educação Musical e Artística (SEMA), criou o ‘Curso de Pedagogia de Música e Canto Orfeônico’ e o ‘Orfeão dos Professores do Distrito Federal’. Também lutou pelo acesso à arte e levou o ensino musical às escolas através do seu ‘Guia Prático’ em 11 volumes e do Canto Orfeônico, que tornou-se obrigatório em todas as escolas. Ele sempre se mostrou preocupado em criar formas de transmitir a qualidade musical aos brasileiros.

 

Hoje, Villa-Lobos é justamente aclamado por romper padrões e dar à música erudita a cara do Brasil, de modo que as pessoas mais simples pudessem se reconhecer no Clássico. Tão nobres intenções não deixaram de fazer nosso maestro um tanto incompreendido. Os vanguardistas não o entenderam plenamente, quando disse que queria “uma arte que representasse o amadurecimento da música, mas não como prenúncio de uma arte tão mecânica que transformasse a sensibilidade humana num aparelho de rádio”.

 

Para esses movimentos de vanguarda, o compositor era apenas um grande exemplo de "devoração cultural das técnicas importadas para reelaborá-las com autonomia, convertendo-as em produto de exportação”, conforme as propagandeadas ideias do Manifesto Antropofágico.  Por outro lado, os antimodernistas o acusavam de destruidor da boa estética, colocando a música Bohemia nas mesmas páginas da música excelsa.

 

Por fim, Villa-Lobos é considerado gênio porque estabeleceu, na carona da Semana de Arte Moderna, o marco inicial do modernismo nacional na música. Com um sucesso internacional estrondoso, é chamado de “alma do Brasil”, porque não desistiu do seu povo. Um moderno homem clássico, eu diria, que levou ao “caipira” a música mais sublime, cujo exemplo maior é aquela peça universalmente conhecida inspirada nos “trenzinhos” da sua infância.

 

[ D'Vox ]

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Luma Cecilia Costa é brasileira, fotografa e designer, é membro do Instituto Cultural Princesa Isabel, colaboradora da iniciativa cultural Casa Sol Invictus, fundadora e administradora do perfil Tolkenianos.

 

A imagen é uma foto anónima do mestre Villa-Lobos. O vídeo no meio do texto é IV Tocata - O trenzinho do caipira, das Bachianas Brasileiras Nº 2, de Heitor Villa-Lobos, interpretada pela Orquestra Sinfônica Brasileira, regente Roberto Minczuk, Rio de Janeiro, 2015.

 

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