Bach: 335 anos do homem que deu à música o peso do terreno e a leveza da mística


Ítaca | Ontem, 21 de março, comemoramos os 335 anos de nascimento do músico Johann Sebastian Bach, nascido em Eisenach, Alemanha, em 21 de março de 1685. Este ano completa-se, também, 270 anos de sua morte, em 1750, aos 65 anos de idade.

Datas memoráveis: a primeira por marcar o início da vida de uma das maiores personalidades da história da música, para muitos, a maior delas; de genialidade indiscutível. A segunda por eternizá-la, revelando essa grandeza a todas as gerações.

Nascido em família de músicos, Bach sempre recebeu auxilio em sua formação musical. Com a morte precoce dos pais, quando ele tinha apenas 10 anos, passou a viver com o irmão mais velho, organista da cidade, quem o ensinou as primeiras execuções do órgão, violino e cravo, os instrumentos do barroco, dos quais ele nutriu mais afinidade pelo primeiro. Neste instrumento ele foi mestre tão soberano que suas obras organísticas bastam para formar um repertório inteiro, tornando, se fosse necessário, dispensáveis grandes nomes do ramo.

Bach nasceu em família luterana e estudou na mesma escola que o próprio Lutero havia frequentado dois séculos atrás. Sua formação doutrinal e musical foi muito influenciada por esta corrente reformada, para quem compôs maior parte de suas obras. De alguma forma ele sempre se mostrou dócil à tradição musical, influenciando todos os meios cristãos e, mais do que isso, mudando seus caminhos.

Dentro do luteranismo, existiu um conflito sobre o uso da música entre os ortodoxos, que exigiam o seguimento da letra inspirada na bíblia e os pietistas, que cultivavam simpatia pelo místico e sentimental, como o canto da comunidade. Bach se sobrepôs aos lados e introduziu a devoção pietista no culto ortodoxo: as cantatas. É, portanto, explicável a influência do coral luterano dentro do texto evangélico.

Dentre todos os seus hinos, são 'Jesus Alegria dos Homens', de 1716, e o 'Magnificat' , de 1723, o cântico latino de Nossa Senhora, os mais reconhecidos. Vale lembrar que a igreja luterana do século XVII não havia banido a devoção a Maria. Todas suas cantatas tem uma inconfundível inspiração alemã e protestante, por isso, não foram comumente executadas dentro da liturgia nas Igrejas Romanas, mas sim, apreciadas em muitos lares católicos.

A maior de suas obras - e talvez a maior obra de toda música ocidental - foi a 'Missa em Si Menor', composta em 1733, e de dimensões tão grandiosas que a tornou impossível, hoje em dia, se reproduzir a serviço da liturgia. Nela, o Agnus Dei tem um estilo reconhecidamente luterano, mas ao longo da missa percebemos a grandeza de Bach: o envolvimento místico genuinamente cristão nos toma, já não se percebem características das distintas confissões. Bach manda que se cante o Credo conforme a melodia do Coral Gregoriano, relembrando, quem sabe, tempos onde todos os cristãos formavam um só louvor.

Através de 'O Cravo Bem Temperado', livro com composições para todas as tonalidades possíveis e maior obra pianística de todos os tempos, Bach conseguiu o título de 'Velho Testamento do Piano', sendo o 'Novo Testamento' as grandes sonatas de Beethoven. Através de suas Fugas e Contrapontos, nos faz experimentar, ao mesmo tempo, o peso da realidade terrena e a leveza da realidade mística: é esse o mais puro sentimento barroco.

De fato, Bach era um homem 'barroco', um místico que muito admirava os prazeres terrenos, criador de uma das maiores obras da história da música e que pouco fez para que ela fosse reconhecida e preservada, não se considerava a sí mesmo um gênio como os modernos, mas um expressionista, como os românticos.

Não conseguiu reformular a música sacra luterana como desejava, afinal, que nova música de louvou poderia se consolidar no século do racionalismo e da 'individualista' ópera? Foi rapidamente esquecido, rapidamente lembrado e, por fim, eternizado.

Setenta anos após a morte de Bach, Mendelssohn redescobriu e executou a 'Paixão Segundo São Mateus' que encontrava-se desaparecida, resgatando para a humanidade uma das maiores obras de todos os tempos. Em face da individualidade do seu gênio e à suprema inteligência e sensibilidade, foi um músico atemporal. Foi ele que, por fim, resolveu o "problema do barroco", fazendo com que o estilo já não mais fosse considerado decadente, mas superior.

As salas de concertos foram, são e sempre serão a catedral invisível de suas obras, ocupando seu lugar de direito: o pilar da música ocidental e inspiração para todas as épocas posteriores. Reconhecida é a Verdade e Beleza que contém a Arte de Johann Sebastian Bach e, fazendo jus ao seu caráter profético, ela confirmou que “A pedra que os obreiros rejeitaram, tornou-se a pedra angular” (Evangelho de Mateus, 21, 42).

[ D'Vox ]

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Luma Cecilia Costa é brasileira, fotografa e designer, é membro do Instituto Cultural Princesa Isabel, colaboradora da iniciativa cultural Casa Sol Invictus, fundadora e administradora do perfil Tolkenianos.

La imagen que abre o texto é 'Retrato de Johann Sebastian Bach', do alemão Elias Gottlob Haussmann, 1748, Antigua ayuntamiento, Leipzig. Dentro do texto, uma parte da capa do 'Cravo bem Temperado', 1702.

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