Atravessa a cozinha um rio profundo


Fechamos este cántico comum de vozes femininas - Vox Femina - da mesma forma como foi aberto, com um poema. Letras que cantam. Desta vez, quem fala é uma brasileira, Adélia Prado. Lírica, quase bíblica, existencial, nos leva ao interior de um lar e devela para nós a essência do feminino. A cozinha é o palco e a esposa é a protagonista: se levanta, escama, abre, retalha, salga. Por trás de esse trabalho inglório - limpar peixes - se esconde o mistério da acolhida. Ele, o esposo, esta junto, "os cotovelos se esbarram". Pouco a pouco, como dom precioso acontece o milagre: "o silêncio de quando nos vimos a primeira vez atravessa a cozinha como um rio profundo". Os peixes ficam prontos na travessa. Logo, na alcova "somos noivo e noiva". O maravilhoso acontece a partir do quotidiano, o belo nasce do coração de uma mulher.

Casamento

Há mulheres que dizem: Meu marido, se quiser pescar, pesque, mas que limpe os peixes. Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, de vez em quando os cotovelos se esbarram, ele fala coisas como "este foi difícil" "prateou no ar dando rabanadas" e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez atravessa a cozinha como um rio profundo. Por fim, os peixes na travessa, vamos dormir.

Coisas prateadas espocam: somos noivo e noiva.

[ D'Vox ]

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Adélia Prado, brasileira, poetisa, esposa e mãe de família, formada em filosofía, Prêmio Jabuti de Literatura em 1978.

O poema é do livro 'Terra de santa Cruz', Rio de Janeiro, 1981. La pintura es 'O Abraço II' del estadounidense Ron Hicks, 2018, Gallery 1261, Denver.

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