Términos del Servicio | Política de Privacidad

CR| opn:

'Querida Amazônia' e as três derrotas de Amerindia

28.02.2020

 

Mochila Política 107 | ‘Querida Amazônia’, do Papa Francisco, frustrou muitas das expectativas de Amerindia, a maior e mais bem articulada rede de teólogos da libertação na América Latina, e lhe impôs, pelo menos, três derrotas.

 

Os dois primeiros fracassos, e de maior impacto na mídia, são que o Papa não aprovou a ordenação sacerdotal de homens casados, nem a de mulheres ao diaconato (veja os números: 90, 100, 101 e 103).

 

Além disso, o Pontífice rejeitou que a missão prioritária da Igreja na gigantesca região amazônica seja resolver questões sociais, ecológicas ou políticas. Estas são importantes e devem ser atendidas por seus leigos, e não diretamente por ministros ordenados ou missionários, que devem, em primeiro lugar, anunciar Cristo.

 

Esta é a terceira derrota de Amerindia (números 62, 63, 64 e 65).

 

As duas primeiras derrotas bloqueiam - pelo menos temporariamente - o avanço de uma agenda de reformas ao interior da Igreja, que também é operada em larga escala e de forma agressiva pela Conferência Episcopal Alemã.

 

A terceira derrota freia a abordagem que parte do clero latino-americano dá à sua ação pastoral, e que contribuiu para o declínio progressivo dos católicos, para o aumento de 'evangélicos' e para o avanço político de organizações e partidos de esquerda na região.

 

Uma vasta rede ‘libertacionista'

 

 

Amerindia promove reformas radicais na Igreja Católica da América Latina há quarenta anos, com base na teologia da libertação.

 

Eles trabalharam de maneira organizada, disciplinada e sistemática, vinculando e 'irmanando' centenas de teólogos, pastoralistas e ativistas. Graças a eles, a teologia da libertação não morreu após a implosão do comunismo e da investida de Roma contra essa corrente nas décadas de 1980 e 1990.

 

A chave para seu sucesso é que ela é uma 'rede' e age como tal: flexível, ágil, capilar, de estrutura simples, de fácil adesão, bastante heterogênea. Opera com sob o critério somar, não dividir. Trabalhou para obter respaldo de parte da hierarquia e tentou sistematicamente influenciar as assembleias de bispos da região.

 

Em 1979, Amerindia operou em Puebla, durante a III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (Celam); em 1992, em Santo Domingo, para a IV Celam; em 1997, em Roma, para o Sínodo da América; em 2007, em Aparecida, para a V Celam.

 

Seu modus operandi nesses eventos sempre foi o mesmo: eles montaram um 'quartel geral' in loco, organizaram eventos paralelos com a participação de organizações religiosas e políticas de esquerda, e criaram narrativas de pressão sobre a hierarquia com um bom uso da comunicação.

 

E, acima de tudo, seus teólogos aconselharam e escreveram as intervenções de alguns dos bispos que participaram dessas assembléias.

 

Durante anos, o desempenho de Amerindia foi semi-clandestino. No III Celam, eles operavam em uma casa localizada na Rua Washinton nº 14, da cidade de Puebla, e usavam o serviço de lavanderia para entregar em segredo as intervenções aos prelados.

 

No V Celam, a rede agiu abertamente pela primeira vez, com o respaldo do presidente da reunião, o cardeal chileno Francisco Javier Errázuriz Ossa. Houve não poucos bispos que discordaram. Havia 30 teólogos operando na Casa São Canisio, na cidade de Aparecida.

 

Dentro do Sínodo

 

 

No ano passado, pelo menos 7 membros de Amerindia foram convidados oficialmente a participar do Sínodo: os brasileiros Paulo Suess, Agenor Brighenti, Justino Sarmento e Roberto Malvezzi; o mexicano Eleazar López Hernández; o argentino Carlos María Galli; e o espanhol que mora na Bolívia, Victor Codina.

 

Destes nomes, três são de grande porte devido a seu intenso ativismo: Suess, por décadas secretário geral e eterno assessor teológico do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), entidade vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB); López Hernández, principal expoente da 'teologia india' no México; e Víctor Codina, um libertacionista 'histórico', contemporâneo de Gustavo Gutiérrez.

 

Além disso, dois prelados brasileiros, que mantêm laços estreitos com a rede, desempenharam um papel de liderança na condução da assembléia e nas articulações feitas nela: o cardeal Claudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e relator do Sínodo; e Erwin Kräutler, bispo emérito de Xingu.

 

Amerindia publicou Rumo ao Sínodo Pan-Amazônico - Desafios e Contribuições' e Perspectivas da Sinodalidade - Rumo a uma Igreja com Rosto Amazônico. Boa parte das propostas registradas nesses livros - que foram trabalhados desde 2018 - estão integradas no instrumentum laboris usado para a assembléia.

 

Os membros de Amerindia colaboraram estreitamente com o trabalho realizado durante quatro anos pela Rede Eclesial de Pan-Amazónica (Repan). para convencer o Papa a convocar um Sínodo para essa região, e, logo, para orientar seu curso. Foi Kräutler quem fez o primeiro pedido ao Papa em 2014, durante um encontro com o Pontífice no Vaticano. Francisco o convocou em 2017.

 

A Repan integra todas as dioceses dessa macrorregião e é dirigida pelos cardeais Hummes e Pedro Barreto, arcebispo de Huancayo, Peru. Os trabalhos dessa estrutura são financiados, em grande parte, por Adveniat, uma fundação dos bispos alemães para ajudar a Igreja na América Latina.

 

Esse vínculo não é irrelevante porque a Conferência Episcopal Alemã está imersa em um 'processo sinodal' que preocupa Roma e, curiosamente, também exige a ordenação sacerdotal de homens casados e de mulheres ao diaconato.

 

O presidente de Adveniat, Miguel Heinz, e o cardeal Reinhard Marx, presidente da Conferência Episcopal Alemã, também foram oficialmente convidados a participar do Sínodo.

 

 

Durante a assembléia sinodal, Ameríndia reproduziu seu modus operandi: aconselhou bispos, escreveu algumas das intervenções e, nessa ocasião, falou com voz própria.

 

Também estabeleceram uma ampla agenda de atividades alternativas - algumas com claro viés político -, levantaram uma ‘Tenda da Casa Comum’, como um centro simbólico de suas ‘operações’, semelhante à ‘Tenda dos Mártires’, levantada em Aparecida, no 2007.

 

Além disso, organizaram uma 'via sacra dos mártires’, na qual lembraram, entre outros, do sindicalista e ativista Chico Mendes; entraram com uma imagem da 'Pachamama' na Basílica de San Pedro e 'entronizaram' outra na Igreja de Santa Maria em Traspontina; e organizaram a renovação do Pacto das Catacumbas.

 

Este último foi proposto por um membro destacado dessa rede, o padre brasileiro Oscar Beozzo, coordenador do Centro Ecumênico de Serviços de Evangelização e Educação Popular (CESEEP), um importante núcleo de ideologização, especialmente a través de seus cursos de verão. O presbítero esteve presente no ato, a pesar de estar com câncer, e fez uma introdução sobre seu significado.

 

No final, várias propostas de Amerindia foram incluídas no documento final do Sínodo. O tom geral do texto fazia parecer que a missão prioritária da Igreja na Amazônia era o "cuidado da casa comum" e a luta pelos "direitos dos povos indígenas", para o que deveria passar por quatro "conversões": pastoral, cultural, ecológica e sinodal.

 

No número 111, solicitou-se a ordenação de homens casados e, em 103, foi declarado que nas consultas da REPAN as mulheres pediram o diaconato. 76% dos padres sinodais votaram a favor da ordenação sacerdotal de homens casados e 82% a favor da ordenação de “diaconisas”.

 

Apesar da articulação ostensiva que realizou e de obter uma posição que dificilmente poderia ter sonhado 40 anos atrás, Amerindia não conseguiu impor três tópicos prioritários em sua agenda, e caíram por terra com 8 parágrafos escritos por Francisco.

 

[ D'Vox ]

___

Diego de Jesús Hernández é periodista, fundador e editor do diário digital D'Vox.

 

Please reload

López Obrador ratifica proyecto y ru...

O novo genocídio chinês

1/15
Please reload