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A ciência como arma ideológica

26.02.2020

 

Tive um professor na faculdade que de forma muito bem humorada nos ensinava algo sobre filosofia da ciência, mesmo não sendo catedrático da disciplina e, acho eu, que até mesmo sem intenção de fazê-lo. Dizia ele que numa conversa agradável numa festa ou numa mesa de bar após uma partida de futebol nada o desanimava e incomodava tanto, quanto quando alguém lhe saía com uma frase do tipo: “isso tem prova científica e tá pronto e acabado”. Dava-lhe uma vontade imediata de pedir a conta e ir embora. Essa lição eu aprendi talvez pelo fato de já a tê-la comigo e até hoje quando alguém toma um argumento científico como fim de conversa sinto que essa pessoa ainda não sabe o que seja a própria ciência.

 

Pois bem, partindo dessa consideração inicial queria tratar acerca da utilização da ciência como arma ideológica trazendo à tona algumas impressões que tive outro dia quando procurava alguns textos pela internet e de forma um tanto aleatória me deparei com um interessante recorte de um texto do bioquímico Michael Behe, autor do famoso e instigante livro, 'A caixa preta de Darwin'. Tais impressões me levaram a algumas reflexões que compartilharei em outro texto, pois duas notícias atualíssimas me compelem a comenta-las antes, uma delas inclusive muito relacionada às teses de Behe. As notícias são a nomeação do novo presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Dr. Benedito Aguiar, e o pedido de cancelamento do Plano Nacional de Prevenção ao Risco Sexual Precoce feito pela Defensoria Pública da União (DPU) por este plano promover a abstinência sexual sem prova científica.

 

Analisemos brevemente os casos: a nomeação do novo presidente da Capes gerou polêmica e insatisfação, pois apesar de seu bom currículo, experiência como docente e como reitor, cometeu o 'disparate', na visão de iluminados portadores da verdade científica, seja do meio acadêmico seja do jornalístico, de defender a possibilidade de estudo da teoria do design inteligente. Já no caso denunciado pela DPU o 'disparate' foi a proposta do Ministério da Mulher e dos Direitos Humanos juntamente ao Ministério da Saúde de que a continência sexual pudesse ser promovida para evitar doenças sexualmente transmissíveis e gravidezes precoces de adolescentes e jovens.

 

Em ambos os casos foi evocado o argumento científico num tom bem parecido com o que o meu professor se indignava. Obviamente que a ciência pode e deve ser evocada em situações assim, mas o problema é que nesses casos citados não se trata de ciência, boa ou má, trata-se da utilização do argumento de autoridade supostamente científica como ferramenta ideológica para calar discursos e desqualificar pessoas, como o Dr. Benedito Aguiar, que não se adequam a agendas politicamente corretas. Dessa forma, os que usam argumentos de autoridade supostamente agem contrariando justamente o preceito científico de se analisar os argumentos e evidências sem juízo valorativo prévio. E aqui não estou referendando o design inteligente como argumento sólido, mesmo porque, como o filósofo americano Edward Feser, considero muito difícil provar a criação utilizando somente as ferramentas da ciência moderna o que poderia causar mais confusões do que dar respostas. No entanto, não é esse o mérito da questão, pois o que se vê é a desqualificação do argumento como pseudocientífico sem que se leve em consideração a sua estrutura explicativa e as supostas evidências que levariam a aceitar a tese do design inteligente. Foi utilizado para isso o exemplo do Reino Unido que proíbe o ensino dessa tese como científica, como se lá não se cometessem erros, vide os casos de Alfie Evans e Charlie Gard, que quase se repetiu com Tafida. Foi com argumentos 'científicos' que negaram tratamento a três crianças, sendo que a que conseguiu se tratar em outro país tem obtido melhoras.

 

O segundo caso também revela o que foi dito acima, mas de forma ligeiramente diferente. Alegando falta de provas empíricas de que poderia se obter sucesso numa campanha contra gravidez precoce instigando as adolescentes a não terem justamente as relações sexuais que poderiam promover a gravidez (sic). Mas aqui há que se conceder que nem sempre o que parece óbvio ao senso comum se confirma cientificamente. Acontece que a Defensoria Pública parece não ter pesquisado muito bem e recorro aqui a algumas fontes como o jornalista especializado em temas científicos Tom Bethell que menciona campanhas bem sucedidas na África assolada pela AIDS, especialmente em Uganda, e uma reportagem da insuspeita agência de notícias BBC que cita campanhas também bem sucedidas nos EUA e que estão bem documentadas. Cabe aqui lembrar que tais campanhas e projetos não são infalíveis e dependem de circunstâncias nem sempre controláveis, mas que podem obter sucesso e trazer outras formas de enxergar os problemas.

 

Esses casos demonstram que nem sempre a ciência é utilizada em sua pureza investigativa, mas como arma política para impor uma posição ideológica e desqualificar ou calar adversários.

 

[ D'Vox ]

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Lino Batista é professor de filosofia, ética e sociologia no ensino medio, membro do Conselho Diretivo da Rede Estadual de Ação pela Família (REAF).

 

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