In memoriam: Scruton, um 'guru' reacionário?

12.02.2020

 

No segundo domingo de janeiro, dia 12, faleceu o eminente filósofo britânico, Roger Scruton. Autor de uma obra considerável e referência contemporânea no estudo da Estética, ele acabou tendo maior alcance e repercussão devido aos seus escritos sobre cultura e política, escritos esses permeados por uma posição conservadora angariando com isso muito apoio e também adversários contumazes.

 

De minha parte devo a ele ter alcançado uma melhor compreensão da filosofia kantiana a partir da leitura de seu livro, 'Kant', em que Scruton explica o cerne do pensamento do filósofo moderno Imannuel Kant.

 

Além disso, impactou-me também o fato de poder acompanhar, ainda que a distância, o desenvolvimento da obra de um filósofo não progressista ou não alinhado à esquerda, o que para alguém que praticamente só tinha contato com autores de esquerda, como se só houvesse inteligência nesse espectro político foi fundamental para que eu e muitos outros pudéssemos vislumbrar outros caminhos e aproximar-nos de uma extensa tradição filosófica que nos parecia caduca e estéril, mas que como ele nos mostrou permanecia viva e com muita força latente.

 

Obviamente ele não era o único e muito menos inquestionável ou isento de crítica, como eu mesmo as tenho, mas isso não diminui o seu legado ou a sua importância no tocante principalmente à filosofia.

 

Ao saber de sua morte e de modo quase automático pensando no que disse acima fui conferir a informação sobre o fato numa pesquisa rápida pela rede mundial de computadores. Em meio ao que li observei algo em seus detratores, sim detratores e não críticos, que tem me incomodado há algum tempo.

 

Poderia resumir esse incômodo em dois pontos sendo o primeiro o teor jocoso com que o chamam de “guru da direita”, epíteto que é dado a todos aqueles que de uma forma ou de outra influenciam ações políticas que não se enquadram ao establishment progressista e revolucionário.

 

O segundo ponto tem a ver com um suposto caráter reacionário de suas análises políticas e mesmo de sua postura como intelectual.

 

A primeira atitude revela uma dupla ignorância ou uma dupla maldade ou ainda quem sabe uma mistura ignóbil das duas. Dupla porque ao chama-lo, como a outros, de guru do modo como fazem desvirtuam o termo que tem um significado preciso na esfera de algumas religiões orientais, sobretudo na Índia. Os gurus resumidamente são mestres das religiões que indicam caminhos que os seguidores devem seguir. São figuras respeitáveis e que possuem conhecimentos elevados no âmbito dos princípios filosóficos e religiosos que regem determinadas religiões.

 

Quando se chama um filósofo ocidental, ainda que muito influente como Roger Scruton, de 'guru' obviamente se pretende escarnecer dele e de quem o respeita, desmerece-lo e desqualifica-lo racionalmente, como se tudo que ele dissesse não passasse de um conjunto de pensamentos irracionais ou de crenças injustificadas.

 

Nesse sentido, como disse acima, há uma dupla ignorância ou dupla maldade. E se revela um preconceito no pior sentido do termo, ainda que como se sempre se mostre de modo suave e gelatinoso, o famoso “ódio do bem”.

 

Esse aspecto vai de encontro ao segundo que também contém uma malícia talvez um pouco mais sutil. Essa sutileza se encontra no fato de que seus detratores tomam como sinônimo conservadorismo e reacionarismo, como se a proposta de conservar tradições e princípios que sustentaram o que se convencionou chamar de “Civilização Ocidental” significasse ir contra as mudanças, sejam elas quais forem.

 

Tratando-se de um filósofo como Scruton a acusação é de que ele só busca compreender o mundo, mas sem propor alterações possíveis o que obviamente entra em contradição com o suposto fato de que ele fosse “guru da direita”, afinal se assim o fosse ele estaria participando de ações efetivas junto às pessoas que supostamente estaria orientando.

 

Cabe observar que essa crítica se baseia numa compreensão marxista de filosofia, onde o filósofo não deveria entender o mundo, mas transforma-lo, ou seja, o filósofo seria antes de tudo um revolucionário. Dessa forma, é natural que progressistas critiquem filósofos como Scruton, mas não é honesto intelectualmente que atribuam a ele um imobilismo político e reacionário que não se encontra em sua obra.

 

Talvez isso ocorra porque a ideia de transformação na obra de Scruton esteja vinculada principalmente a alterações individuais e não a imposições coletivistas como ele presenciou no leste europeu. Essa atuação contra a ditadura do coletivo sobre a liberdade individual fez com que ele ganhasse inclusive o prêmio Medalha de Mérito da República Theca. Isso mostra que a acusação que pesa sobre ele encontra-se antes por sua não adesão a uma filosofia do que a um suposto reacionarismo.

 

Em meio a tantas homenagens a esse filósofo britânico de produção tão prolífica espero que esses esclarecimentos possam contribuir principalmente para uma compreensão de que ser conservador não significa negar as mudanças, afinal só progride quem conserva, mas que é possível mudar sem perder a essência das tradições que chegam a nós por meio do sacrifício de tantos que ao longo da história deram suas vidas pela verdadeira liberdade humana.

 

Obrigado Scruton por essa lição! Requiescat in pace!

 

[ D'Vox ]

____

Lino Batista é professor de filosofia, ética e sociologia no ensino medio, membro do Conselho Diretivo da Rede Estadual de Ação pela Família (REAF).

 

A imagem que abre o texto é uma pintura, ainda sem titulo, do pintor estadounidense Stephen Bauman, de janeiro de 2019. Parte de sua obra, pode ser vista aquí.

 

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