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O expressivo aporte à cultura e espiritualidade mineira do mestre 'Aleijadinho'

29.08.2019

 

Antônio Francisco Lisboa, 'Aleijadinho'. Provavelmente seja ele a figura mais excepcional do século XVIII brasileiro. Felizmente não esquecido, tem reconhecimento mundial por contribuir para o enriquecimento desse estilo artístico já consolidado, o barroco, a través da vertente peculiar do 'Barroco Mineiro'.

 

Hoje, 29 de agosto, cumprindo-se 281 anos do dia do seu nascimento, quero sublinhar o papel fundamental que teve na formação da cultura e espiritualidade mineira de acordo com a necessidade da época. Poderia analisar aqui diversos aspectos desta herança. Aponto só um, um aporte pontual dele que marcou Minas: o resgate do amor à Mãe de Deus.

 

Sendo o barroco originário da Itália no século XVI, de onde se difundiu para a América através dos missionários leigos e religiosos, por meio dos quais chegou ao Brasil, sofreu influência direta do Concílio Trentino europeu (1545-1563), e, por tanto, contribuiu para neutralizar a ação iconoclasta desencadeada na Reforma.

 

Através desta 'contrarreforma' tridentina, a Igreja Católica reafirmou os dogmas, as doutrinas, e confirmou a importância do uso de imagens para o culto e a devoção. Um papel de destaque teve a devoção na Mãe do Salvador, auxilio e intercessora dos pecadores perante seu Filho. Esta função 'mediadora' era combatida pela Reforma.

 

America Latina era maioritariamente católica, e a preocupação da Igreja foi fundamental para o que, hoje, consideramos patrimônio histórico, ou, principalmente, para a herança espiritual e cultural. Manifestando, através da arte, suas crenças, seus dogmas e sua pedagogia própria, o catolicismo promoveu a criação artística como uma forma de elevação da alma.

 

Segundo o historiador Eamon Duffy, em resposta às contestações protestantes, o Concílio de Trento promulgou o decreto De invocatione, veneratione et reliquiis sanctorum et de sacris imaginibus que durante séculos vai direcionar a atitude da Igreja diante da arte sacra.

 

O decreto legitimou a veneração e exposição das imagens em seus lugares de culto, a devoção dos fiéis deveria ser feita aos próprios santos, pedindo intercessão, não às imagens. Mesmo que estivessem abençoadas, os mesmos deveriam ser honrados e venerados, mas nunca adorados.

 

 

 

Dentro do Barroco, no final do mesmo século, a arte ganhou força, não só da igreja, mas das irmandades laicais, que em sua maioria eram constituídas por artesãos e leigos que buscavam exaltação Divina através da arte. Dessa forma, o barroco brasileiro se manifestou principalmente nas capitanias das Minas Gerais, nome dado pela abundância de minerais encontrados, evidenciado na descoberta do ciclo do ouro, no século XVIII, que trouxe grande riqueza ao Estado.

 

O ouro também foi utilizado na ornamentação das igrejas barrocas. Os membros das irmandades e trabalhadores das minas doavam parte de seu garimpo para ajudar na construção das igrejas por considerar importante a exuberância artística para o culto a Deus.

 

Nesta fase podemos observar a polimórfica natureza do barroco no interior das igrejas, um estilo que recebia a alcunha de Rococó, caracterizado pelas curvas, exagero, distorções e desproporções ornamentais enriqueciam os templos.

 

Dentro deste contexto destaca-se o nome de Antônio Francisco Lisboa, conhecido como 'Aleijadinho', que nasceu na cidade mineira de Vila Rica, atual Ouro Preto, em 29 de agosto de 1738.

 

Era filho do português Manuel Francisco Lisboa, mestre de carpintaria, com quem aprendeu a esculpir ainda criança, e de uma escrava chamada Isabel. Ao longo de sua vida, desafiando graves problemas de saúde, 'Aleijadinho' esculpiu em madeira uma grande quantidade de imagens religiosas que compõem a listagem das maiores obras artísticas do Brasil e do mundo, uma ampla porcentagem delas, dedicadas à Mãe do Salvador.

 

Através destes fatos históricos, podemos concluir a importância da iconografia mariana dentro do barroco: o resgate da fé católica através do amor filial. Dentro da Igreja Apostólica Romana é que se evidencia a sua grandeza, pois ela própria participa do Mistério da Salvação. Para a cultura católica, o encontro com Maria gera o encontro com o próprio Cristo e com as Verdades de Fé.

 

Deste modo, chegamos ao objetivo da arte religiosa barroca bem representada pelo mestre 'Aleijadinho', principalmente pela imagem da padroeira de Minas Gerais, Nossa Senhora da Piedade, a Pietá, localizada no Alto da Serra da Piedade, na cidade de Caeté, com 250 anos de peregrinações e influência religiosa e cultural:

 

"A imagem da Padroeira de todos os mineiros é obra de 'Aleijadinho', referência maior do barroco de Minas, nascido na grandeza da história deste 'Estado Diamante'.  O Santuário configura-se, pois, em inesgotável tesouro da religiosidade mineira", aponta o Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo.

 

 

A nossa Pietá, que foi reconhecida pelo Papa João XXIII como padroeira de Minas Gerais através da bula Haeret Animis, de 1958, tem um papel importante no desenvolvimento da cultura católica mineira.

 

A serra onde esta o santuario que alberga a imagem passou a ser chamada de 'Serra da Piedade', e desde que se fundou o santuário nunca mais cessou o intenso movimento de peregrinos. Milhares de pessoas se dirigem até o alto da serra e ali fazem promessas e orações.

 

Em 31 de julho de 1960, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, diante de 40 Bispos do estado, do governador de Minas e autoridades civis e militares, foi lida a referida bula do Papa João XXIII, constituindo Nossa Senhora sob o título de Nossa Senhora da Piedade, Padroeira de Minas Gerais, oficializando o culto existente.

 

A influência da Iconografia mariana da Pietá do mestre 'Aleijadinho' é tão expressiva que não se pode contabilizá-la. Todas as paróquias e irmandades de Minas, cada uma com sua devoção, se curvam ao longo dos anos a esta mesma devoção. Por isso ela é uma das mais importantes obras do barroco e da espiritualidade cristã mineira.

 

Aleijadinho é considerado o maior artista e arquiteto do período colonial brasileiro, em sua grande maioria, pelo seu serviço à Igreja. É impossível exaltar suas obras sem, pelo menor, ter algum respeito pela sua fé. Isso nos provou não só ele, mas também padre Nunes García e Mestre Valentim, cada um no seu ramo artístico no período colonial, que juntos ornamentaram Minas Gerais com tamanha beleza, que fez do nosso barroco a maior fonte de espiritualidade artística e união popular.

 

[ D'Vox ]

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Luma Costa é fotografa e designer brasileira, participa da iniciativa cultural Casa Sol Invictus.

As fotos são da imagem de 'Nossa Senhora da Piedade', do mestre 'Aleijadinho', 1791, tomadas pela autora do texto. 

 

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