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O Fórum de São Paulo ou o marxismo muda de pele

12.08.2019

 

Mochila Política 88 | O Foro de São Paulo (FSP) é uma nova versão do poder marxista na América. Entre 1989 e 1990, o comunismo soviético implodiu na Europa, e desde os trópicos, em Cuba e no Brasil, uma estratégia foi desenvolvida para sobreviver à chegada daquele tsunami em terras latino-americanas.

 

Seus fundadores reuniram os dispersos, adaptaram suas abordagens, facilitaram o trânsito das guerrilhas para grupos políticos com incidência eleitoral - às vezes sem o total abandono de atividades ilegais -, estabeleceram uma agenda  comum, levantaram novas bandeiras, renovaram métodos ... mas eles só mudaram de pele.

 

Algo semelhante aconteceu também no campo da teologia da libertação, no Encontro de El Escorial, em 1992, na Espanha; e para organizações sociais com a fundação do ATTAC, em Paris, 1998.

 

Mas o FSP nasceu primeiro. Aqui, as antigas redes subversivas financiadas pelo comunismo soviético e outras organizações de esquerda foram convocadas e reincorporadas em 1990 a um novo e bem-sucedido 'nodo' político-ideológico.

 

Uma cria com dois pais: Castro e ‘Lula’ 

 

 

Segundo o cubano Roberto Regalado, a iniciativa de criar o FSP “surgiu de uma conversa entre Fidel Castro Ruz e o líder do Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Inácio 'Lula' da Silva, durante uma visita deste a Cuba".

 

Essa visita talvez tenha sido em janeiro de 1989. E a ideia pôde ser consolidada na viagem de Casto ao Brasil em março de 1990.

 

'Lula' e Fidel se conheceram em 1980, em Manágua, apresentados pelo brasileiro Frei Betto e pelo padre Miguel D'Escoto, então ministro do Exterior do governo sandinista na Nicarágua.

 

Em seu livro 'Encontros e Desencontros da Esquerda Latino-Americana', Regalado ressalta que havia uma necessidade urgente de responder ao processo de implosão da União Soviética - o Muro de Berlim caiu em 1989 - e de aproveitar os resultados eleitorais registrados em México, Brasil e Uruguai.

 

Embora em todos a esquerda tenha perdido, houve grande “mobilização de massas” e milhões de votos para a Frente Nacional Democrática, no México, em 1988; para a Frente Amplio no Uruguai e o PT no Brasil, em 1989.

 

Um grande bloco continental ‘vermelho’

 

 

Roberto Regalado, que esteve na primeira reunião do FSP, como delegado do Partido Comunista de Cuba (PCC), sublinha:

 

“Foi um evento histórico, porque pela primeira vez, partidos políticos e movimentos que cobriam todo o espectro da esquerda latino-americana coincidiam no mesmo espaço. A partir dessa convergência, derivaram dois fatos inéditos: um, a participação de todas as correntes de orientação socialista; o outro, a justaposição destas com correntes social-democratas e outras de caráter progressista".

 

Não foi uma conquista menor. A esquerda tem sido historicamente relutante a agir de forma conjunta, e o fez só quando o centro do poder soviético exerceu pressão para tal fim. Um testemunho disso pode se lido em "O Retrato", texto biográfico de Osvaldo Peralva, membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e seu representante no Kominform, órgão internacional de coordenação soviético.

 

Havia uma razão conjuntural, mas de capital importância, para "juntar às esquerdas" e Fidel a enxergava claramente: a ditadura castrista estava prestes a ficar sem uma de suas fontes de financiamento, e a crise soviética teria graves consequências políticas na região precisamente num momento. em que partidos “progressistas” registravam avanços eleitorais sem precedentes.

 

O governo dos Estados Unidos já estava trabalhando para formar um bloco econômico continental e havia dado o primeiro passo com a negociação do Acordo de Livre Comércio com o México. Cuba ficaria isolada e sem aliados.

 

Era necessário procurar uma saída: expandir-se no continente - de olho no petróleo do México, do Brasil e da Venezuela - para formar um grande bloco 'vermelho' sob a tríplice bandeira da integração latino-americana, o combate ao 'imperialismo' e a luta contra o 'neoliberalismo'.

 

'Nodo' articulador

 

 

A 'jogada de mestre' foi flexibilizar as posições para unir progressivamente o maior número possível de forças políticas de esquerda a um 'nodo' de articulação continental. Um 'nodo' é um núcleo ou ponto de interseção e ligação de diversas forças, que opera como uma rede de redes.

 

Os documentos da primeira reunião registram a participação de 48 organizações de 14 países. Havia desde comunistas, guerrilheiros e terroristas até nacionalistas, social-cristãos e social-democratas, com os socialistas no centro, como eixo de gravidade.

 

O 'Foro de São Paulo' não nasceu com esse nome. No início, chamava-se "Encontro de Partidos e Organizações da Esquerda da América Latina e do Caribe" e foi realizado de 2 a 4 de julho de 1990, no agora extinto Hotel Danubio, na região central da cidade de São Paulo.

 

Lula explicou na manhã do primeiro dia os objetivos: conviver juntos, conhecer-se melhor, descobrir divergências e convergências e “tirar conclusões para orientar a ação da esquerda na América Latina”.

 

O documento final da reunião explica que, numa futura reunião no México, eles procurariam "propostas para a unidade consensual de ação para a luta". Isso aconteceu em 1991, com o Partido da Revolução Democrática (PRD) como anfitrião. Lá foi batizado como 'Foro de São Paulo'.

 

Num discurso durante a XII reunião da FSP, em 2005, Lula lembrou: “No início as reuniões não eram fáceis, muitas vezes as diferenças eram maiores que a concordância, mas aplicamos um princípio que aprendemos quando iniciamos nossa militância: se todos nos juntamos, vamos derrotar os outros".

 

‘Para isso criamos o Foro’

 

 

Isso é o Foro: um 'nodo'. Mas não qualquer 'nodo'. Hoje, articula oficialmente 121 partidos políticos de 26 países latino-americanos. Seus afiliados governam neste momento 8 países, apesar da onda global anti-sistêmica e anti-esquerdista.

 

"Em 1990, quando criamos o FSP, nenhum de nós imaginou que apenas duas décadas depois chegaríamos aonde chegamos. Naquela época, a esquerda estava apenas no poder em Cuba. Hoje nós governamos um grande número de países e, onde somos oposição, os partidos do Foro têm uma influência crescente. Estamos mudando a face da América Latina ”.

 

Essas palavras são, novamente, do ex-presidente do Brasil, Luis Inácio 'Lula' da Silva, num vídeo de apoio a Hugo Chávez para a XVIII reunião da FSP realizada em Caracas em 2012; eles estavam no ápice nesse momento e os efeitos do que eles chamam de "contra-ofensiva da direita imperialista" ainda não se manifestavam.

 

Consultei os resultados de todas as eleições presidenciais na América Latina de 1990 até hoje e os cruzei com as listas dos participantes nas reuniões anuais do Foro. Lula estava certo. Os números não mentem.

 

Na impressionante onda vermelha que inundou o continente a partir de 1993 e que foi fortemente sentida até 2014, vemos os membros do FSP como protagonistas ou adjuvantes relevantes.

 

Nos 29 anos de existência do Foro, seus membros venceram 46 eleições presidenciais: 37 com candidatos próprios e 9 integrando alguma alianças. Na Colômbia, apesar de terem perdido, tiveram uma inédita e invejável performance eleitoral com Gustavo Petro nas eleições de 2018.

 

No total, eles levaram ao poder a "companheiros" em 16 países. Não incluí México - que eu penso é um caso à parte - nem a pétrea Cuba, na qual o PCC já exercia o poder antes de 1990.

 

No México, Andrés Manuel López Obrador venceu a eleição de 2018 com o Movimento Regeneração Nacional (Morena) - que tem pouco tempo de integrado no Foro - e com um amplo segmento do velho sistema, a 'ala' esquerda da 'família revolucionária'. Uma corrente de seu movimento / partido, Morena, é promotora da FSP, mas até hoje não parece ter influência definitiva para que o partido ou o governo López Obrador assumam um compromisso aberto com os postulados do FSP.

 

Neste balanço numérico, também não contemplo as eleições legislativas em que as organizações afiliadas ao FSP ganharam peso expressivo em pelo menos 24 países.

 

Em 2013, José Dirceu, um dos fundadores do PT, disse em entrevista a Antonio Abujamra: "todos lutamos e trabalhamos duro [para chegar ao poder na região], é por isso que criamos o FSP, [...] depois, todos eles foram presidentes, todos. Apenas o mexicano Cuauhtémoc Cárdenas ainda não é".

 

Entre os triunfos do Foro está a chegada ou manutenção do poder, entre outros, do Partido Revolucionário Democrático no Panamá, do Partido da Libertação Dominicana; do PT no Brasil, do Frente Amplio em Uruguai, de Evo Morales na Bolívia, de Daniel Ortega na Nicarágua e da narco-ditadura que hoje prevalece na Venezuela.

 

O FSP é um Kominform ad hoc para a região, sob a hegemonia do PCC e do PT. De quem foi a idéia de unir à esquerda do continente contemplando toda sua diversidade e de não formar um bloco “puro”?

 

Difícil dizer, mas as palavras de 'Lula' no XIX encontro do Foro, em 2013, dão alguma luz:

 

"Companheiros, quero reconhecer que parte da chegada da esquerda ao poder na América Latina se deve à existência dessa 'cosita' chamada Foro de São Paulo, que nasceu aqui, no Brasil, mas muito se deve também aos camaradas cubanos que sempre nos ensinaram a ter tolerância com os companheiros de luta".

 

[ D'Vox ]

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Diego Hernández es periodista y editor del diario digital D'Vox.

 

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