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O que salva um país: moral, técnica ou gestão? O caso brasileiro

15.04.2019

 

Incialmente, gostaria de dizer que eu não vou concluir aqui que são os três fatores juntos que salvam um país. Isso, para mim, é conclusão de preguiçoso. Neste texto, eu vou separar a importância de cada fator – moral, técnica e gestão – para o caso recente da eleição no Brasil e do novo governo no país.

 

Durante o debate público no Brasil sobre a campanha do então deputado Jair Bolsonaro, ficou claro de que lado estava a moral, a técnica e a gestão. Bolsonaro seria o salvador da moral brasileira, o Paulo Guedes seria o técnico salvador do país, enquanto a mídia opositora afirmava que um governo Bolsonaro seria um caos de gestão, pela falta de experiência do candidato e pela falta de apoio do Congresso Nacional.

 

A Moral

 

A moral tem um estreito relacionamento com a ética. Em termos doutrinários, ética pode ser definida como regras de conduta ou princípios morais que regulam o comportamento de um indivíduo, de uma comunidade ou de uma sociedade. A moral é mais relacionada com o que determinada pessoa pensa sobre certo ou errado, é algo bem mais pessoal, não amparado por um amplo ordenamento de conduta definido para outros.

 

No caso desse texto, no entanto, trato ética e moral como se fossem sinônimos, estou chamando os preceitos éticos do Bolsonaro de moral do presidente.

 

Bolsonaro afirmou que baseou sua campanha eleitoral em uma passagem bíblica, João 8:32, além disso, ele representava a moral porque defendia a legítima defesa da família e dos agentes de segurança pública, prometeu que vetaria medidas legislativas em favor do aborto, exaltava que nunca foi mencionado por acusações de corrupção, apoiava as investigações policiais da Lava Jato contra políticos e empresários e se mostrava contrário à união homossexual.

 

Dentre os candidatos possíveis nas eleições, realmente Bolsonaro representava a única alternativa para quem entendesse e apoiasse o que significa ser conservador social ou o que significa a doutrina social da Igreja. Isto é relevante pois a maioria dos brasileiros ainda é católica e uma ampla porcentagem dos que votaram no presidente defende uma agenda 'conservadora'. Os outros candidatos ou eram inimigos dos pensamento conservador ou social cristão, ou eram apenas partícipes de uma vertente socialista fabiana revestida de social democracia, ou eram baluartes do liberalismo econômico, que têm como deus o que chamam de mercado e relegam questões sociais e religiosas para a Organização das Nações Unidas (ONU).

 

Mas essa posição do Bolsonaro como defensor da moral e dos bons costumes não está muito garantida. As palavras e ações do Bolsonaro algumas vezes mostraram que ele não estava preparado para assumir essa função, como muitas vezes ficou claro que Bolsonaro não entende o que representa ser católico. Por exemplo, certa vez em uma entrevista para rádios católicas, durante a campanha, um repórter perguntou a ele sobre sua posição sobre o aborto lembrando que a doutrina da Igreja defende a vida da criança mesmo que a criança tenha sido gerada por estupro. Bolsonaro pareceu não entender a pergunta, e apenas disse que vetaria medidas que avançasse a agenda do aborto. Isso é, ele não avançaria na defesa da vida. Manteria tudo como está. No Brasil, o aborto é permitido em caso de estupro.

 

Nesses três meses de governo o caso mais explícito em que Bolsonaro mostrou que não entende o que significa ser conservador social foi quando ele divulgou um vídeo pornô homossexual em uma rede social e ainda fez o país discutir o que seria o “golden shower”. Ele estava querendo condenar aquelas ações homossexuais em público, mas nada justifica um adulto divulgar um vídeo pornô, muito menos um adulto conservador, menos ainda um adulto católico e muito menos ainda um adulto católico presidente de um país.

 

Ainda é muito cedo para uma avaliação, o que pode ser dito com bastante grau de certeza é que a personalidade o presidente é bem volátil e que temos um presidente que não é capaz de defender suas posições morais em bases éticas ou em bases de conhecimento histórico, filosófico ou teológico.

 

Em suma, Bolsonaro não tem competência para ser salvador do país, pois não tem competência naquilo que parecer ser mais forte, não tem competência moral. Ele é sim um moralista raso doutrinariamente. Mesmo que certamente ele não vai ser o salvador moral da pátria, é claro que ele pode melhorar bastante e a sua posição como presidente pode ser uma escola fantástica, caso aprenda quando é a justa hora para um rompante.

 

A Técnica

 

 

Durante as eleições, Bolsonaro sempre repetiu várias vezes que não sabia economia, repetia isso até com orgulho, completando que Dilma dizia que sabia economia e deixou o país em forte recessão econômica. A questão econômica era o assunto mais exaltado pela mídia, o país estava naquilo que foi considerado a pior recessão da história do país. Bolsonaro, no entanto, tinha um salvador da pátria para esse assunto, o economista Paulo Guedes, de 70 anos, formado na Universidade Chicago, com vasta experiência no mercado financeiro, ao ponto de fundar banco.

 

O chamado “mercado” adorou a indicação de Paulo Guedes. Recentemente, um texto curto de O Antagonista disse: “A maior sabotagem contra o governo de Jair Bolsonaro é inviabilizar uma reforma da Previdência que economize 1 trilhão de reais nos próximos dez anos e fazer com que Paulo Guedes se demita.”. Pela lógica argumentativa do site se percebe que o governo precisa de uma economia de 1 trilhão de reais em 10 anos, pois disso depende a permanência do Paulo Guedes. O país está nas mãos de um número de poupança na previdência.

 

Nas eleições, Paulo Guedes prontamente entendeu que um liberal capitalista não teria voto suficiente na sociedade para ser eleito. O povo não votaria por privatização ou reforma da previdência.  Bolsonaro, com seu apelo contra a violência e defesa de posições morais conservadoras, é que teria esse apoio.

 

O escritor inglês Gilbert K. Chesterton certa vez disse que “o reformador está sempre certo sobre o que está errado. Mas está geralmente errado sobre o que está certo”.

 

Apesar de termos apenas três meses de governo, esse parece ser o caso de Paulo Guedes. Ouvir o Paulo Guedes em seus discursos é como ouvir um amigo entusiasmado sobre uma ideia em um bar, ou ouvir um pastor colérico. Ele junta tópicos técnicos com questões morais em apenas um parágrafo de forma tão ligeira que o amigo ouvinte no bar não consegue ou tem receio de interromper e o ouvinte no templo não tem poder para intervir, as palmas o silenciam. Recentemente, ele juntou gestão federativa de governo com tamanho e importância do Estado, com corrupção e com time de futebol em poucas palavras. O time de futebol reagiu. Paulo Guedes virou assunto em sites de futebol.

 

Ainda não se tem muita certeza do valor prático da técnica de Paulo Guedes. E esse valor vai depender de sua gestão. O jornal Estado de São Paulo já criticou o modelo de gestão que ele adotou para o antigo Ministério da Fazenda, ao agregar cinco ministérios em um só. O modelo de gestão interna do Ministério da Economia é atualmente alvo de críticas internas e externas.

 

Se fosse para decidir sozinho, Paulo Guedes já disse que privatizaria todas as estatais, não faria mais concurso público, demitiria funcionários públicos. Em suma, implantaria uma agenda liberal do tipo da escola austríaca de economia, que nunca foi implementada em nenhum país do mundo.

 

Os Estados Unidos, país mais rico do mundo, tem um presidente, empresário de muito sucesso, que atualmente prega a defesa das empresas nacionais, o que seriam políticas tradicionalmente de esquerda. A história dos Estados Unidos na construção de sua riqueza não é uma história em defesa do liberalismo austríaco. Como qualquer país, os Estados Unidos adotaram e adotam muitas leis restritivas ao comércio global, têm gigantescos gastos sociais, e é muitas vezes visto como usando o 'crony capitalism', capitalismo de compadrio que mistura o privado com o público, visto, por exemplo, pelo fato de que é muito comum que banqueiros assumam postos-chaves na gestão financeira dos Estados Unidos, como é o caso do próprio Guedes no Brasil. O sucesso em termos econômicos dos Estados Unidos não está relacionado intimamente com o capitalismo, é certamente algo mais profundo.

 

Paulo Guedes, em seus discursos, se mostra como pouco conhecedor de história no sentido minimamente profundo, suas palavras se restringem basicamente a dizer que os países desenvolvidos são ricos e que o Brasil só os alcançará com uma agenda liberal. Algo como profeta do passado, sem saber bem como foi o passado. Não devemos esperar atualmente que um economista tenha conhecimentos sólidos de história e filosofia econômica, na imensa maioria das vezes isso não é ensinado nas escolas de economia. A ciência econômica surgiu como fruto do Direito, com preocupações de justiça distributiva e comutativa, mas desde o século passado as melhores universidades de economia no mundo se destacam por tentar aproximar a economia da engenharia e se afastar de questões sociais, enquanto propõem medidas que alterariam a vida de milhões.

 

Assim, Paulo Guedes tem claramente competência sobre como ganhar dinheiro no mercado financeiro. Isso é importante para o Brasil. O país e os brasileiros precisam urgentemente aprender a poupar e a serem mais produtivos.  Mas Guedes não tem competência para ensinar história econômica. Então, não se pode dizer que Paulo Guedes tenha competência técnica. Além disso, como o sucesso do valor técnico de Paulo Guedes vai depender de fatores sobre os quais ele não tem nenhum poder, como Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal, e a gestão interna dele no Ministério da Economia tem sido de alvo críticas corretas, não se deve esperar que Paulo Guedes seja salvador do país nem pela técnica nem pela gestão.

 

A Gestão

 

Durante as eleições, dois experientes políticos brasileiros, Luiz Inácio 'Lula' da Silva e Geraldo Alckmin, além de inúmeros especialistas e a mídia, disseram que não havia a menor possibilidade de Bolsonaro vencer as eleições. Uma das justificativas mais comuns era que ele não tinha expressão no Congresso Nacional, nem qualquer experiência de gestão pública. Certamente o “sistema” iria derrubar a candidatura do Bolsonaro.

 

O tal “sistema” não derrubou, mas não se pode dizer que não tentou. Além de ataques pessoais que diziam que Bolsonaro era homofóbico, racista ou fascista, os especialistas e a mídia sempre lembravam a inexperiência em gestão do candidato Bolsonaro.  Outros candidatos, como Alckmin e Fernando Haddad já tinham exercido cargos importantes no poder público. Apesar de inúmeras acusações contra eles em casos de corrupção. Corrupção pública é, em poucas palavras, uma má, péssima, gestão de orçamento público. Mas esses candidatos não sofriam ataques na sua capacidade de gestão. O chamado “mercado” também condenava a mesma coisa em Bolsonaro, mas se pendurava no Paulo Guedes, amigo do “mercado”.

 

Pela lógica argumentativa dos especialistas e da mídia, o Congresso Nacional seria o candidato para ser o salvador da pátria na gestão pública. Mas acho que não preciso comentar que esse não é o caso no Brasil, nem de longe.

 

Conclusão

 

Em resumo, nenhum ilustre representante da moral, técnica ou gestão no Brasil tem capacidade de salvador da pátria.

 

Mas qual é a mais importante, a moral, a técnica ou a gestão para a salvação de um país? Como a técnica de Paulo Guedes vai depender da gestão e a gestão dele e do Congresso Nacional vão depender da ética adotada por eles, resta claro que é a moral que fundamenta a salvação do país. Se é assim, é o povo que que fundamenta e orienta o futuro do país, por meio da ética que mais se sobressai na sociedade.

 

No entanto, na prática política, o comum é a moral ser pisoteada em nome da técnica e da gestão. Por exemplo, no momento, no Brasil, o Supremo Tribunal Federal claramente age em favor dos políticos corruptos ( e assim age em favor da péssima gestão e de malévola ética) e também age como se fosse legislador (outro exemplo de péssima gestão e de lamentável moral), como se 11 ministros não eleitos pudessem determinar leis econômicas, políticas e morais ignorando os poderes do Congresso Nacional. Mas o governo Bolsonaro, representante da moral, e o ministro Paulo Guedes, representante da técnica,  e o próprio Congresso Nacional, não querem enfrentar o Supremo com argumentos morais que seriam amplamente vitoriosos em debates simples de ética. Eles submetem a moral em nome de uma utópica salvação técnica, que seria a reforma da previdência, e em da salvação de corruptos.

 

[ D'Vox ]

 

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Miguel Montenegro Sender é mestre em economia e doutor em ciências sociais.

 

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