Os filhos do Presidente


Refiro-me a três deles, todos homens públicos, um Senador da República pelo Estado do Rio de Janeiro, outro vereador vereador na Câmara Municipal do Rio de Janeiro e o terceiro Deputado Federal por São Paulo, respectivamente, Flávio Bolsonaro, Carlos Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro, todos do Partido Social Liberal (PSL), partido do Presidente.

Embora homens públicos e, sem dúvida, boas pessoas que devem ser, não deixaram, porém, de causar problemas ao Presidente Bolsonaro, uns mais, outros menos, noticiados e, por vezes, agravados pela mídia.

Flávio Bolsonaro esteve na berlinda por ter, como assessor, alguém que fez movimentações atípicas de dinheiro, de cerca de um milhão e duzentos mil reais, apontadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) – e, ao que parece, com salários dos funcionários do gabinete do Senador, depositados em sua conta, isto é, a do assessor.

O Senador, por sua vez, teria depositado numa das suas contas cerca de 100 mil reais em dinheiro, em parcelas de 2 mil reais, com intervalos de minutos; perguntado, declarou que se tratava de parte do dinheiro recebido, pela venda ou permuta de um seu imóvel e que o depósito fora feito nessa conta, numa agência bancária, no próprio Senado (onde esse é o limite de valor para cada depósito), por não querer enfrentar as filas de outras agências.

O assunto, além de outros fatos apontados, como, por exemplo, os louvores dispensados pelo Senador a policiais militares, por operações bem-sucedidas, mas depois demitidos e envolvidos em milícias, está sendo objeto de investigação por parte do Ministério Público Federal do Rio de Janeiro, sendo certo que até agora nenhum deles, seja o Senador, seja o assessor, foi acusado, e muito menos indiciado, por qualquer crime.

O Senador tem negado as acusações, dizendo que tem como provar sua inocência, o que fará oportunamente, na altura em que for para isso convocado; o assessor, entretanto, não tem comparecido aos convites ou convocações feitas. [1]

O deputado Eduardo Bolsonaro, por sua vez, já esteve na berlinda, quando declarou, no contexto de uma resposta a uma pergunta, em que exemplificava algo, durante uma palestra, que bastavam um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal (STF); mas, depois, pediu desculpas e esclareceu que a mídia ressaltava algo que fora extraído de um contexto, este omitido. E é verdade.

Parecia que as coisas decorriam num clima de relativa normalidade, há algum tempo, quando Carlos Bolsonaro [2], no último dia do Presidente no Hospital Alberto Einsten, em São Paulo, acusou publicamente o ministro Gustavo Bebiano, articulador e o responsável pela campanha eleitoral do Presidente, desde a primeira hora, de ter mentido, [3] quando, numa entrevista a um dos veículos do grupo Globo de televisão, o Ministro declarou que falara, nesse mesmo dia, por três vezes, com o Presidente.

A resposta foi à pergunta sobre se estava tudo bem com o Presidente após uma acusação do repasse de quantias do fundo partidário do PSL a 'laranjas', ocorrido quando o ministro era presidente do Partido, ao que Bebiano declarou que a responsabilidade por esse repasse não era dele, mas dos diretores estaduais , pois eram eles que escolhiam os candidatos e solicitavam as verbas à Presidência do Partido, que as repassava, sob inteira responsabilidade deles. E que estava tudo bem entre ele e o Presidente, já que falara com ele três vezes naquele dia, fato desmentido publicamente nas redes sociais pelo Carlos.

Essa afirmação de Carlos, secundada pelo Presidente, não desmente o ministro que deixava ver ter falado com o Presidente pelo WhatsApp e que nessas conversas não se referira ao fato que terá sido o pivot de toda essa estória, a liberação pelo Presidente- do PSL-, de grandes somas de dinheiro, em favor de candidatas 'laranjas', isto é, supostas, que, na realidade, não eram.

A verdade é que, graças ao comportamento de Carlos Bolsonaro, imperdoável num vereador de mais de um mandato, a relação do ministro Bebiano com o Presidente ficou estremecida e correram nos últimos dias fortes rumores de que o Ministro estaria num processo de fritura [4], e que em vista disso desejava pedir sua renúncia, depois de dizer, no dia anterior, que não renunciaria.

Renúncia, só impedida temporariamente pela intervenção do ministro Lorenzoni e do também ministro, General Santos Cruz, que lhe teriam pedido que reconsiderasse sua decisão, pois um acontecimento desses poderia trazer graves danos ao Governo, numa hora em que importantes pedidos de reformas estavam prestes a dar entrada no Congresso Nacional.

O presidente Jair Bolsonaro demitiu na tarde da segunda-feira, 18 de fevereiro, a Bebiano, nomeando para o cargo ao general Floriano Peixoto. Todo, para gáudio dos que torcem contra o Presidente e seu Governo, a começar por parte da grande mídia. O Presidente tem todo o direito de exonerar colaboradores se houver quebra de confiança ou suspeita de corrupção, mas não assim, por intervenção de um dos seus filhos.

O comportamento de Carlos tem sido condenado e o ex-ministro Bebiano poupado por líderes importantes, como o Presidente da Câmara dos Deputados que disse que o Presidente da República teria de pôr um fim a esse estado de coisas para que, com o enfraquecimento do seu Governo, as reformas não fossem prejudicadas.

Tem razão Rodrigo Maia.

Digo mais: o Presidente deveria afastar de vez a interferência dos filhos no seu Governo já que não são ministros, nem secretários de Estado, isto é, integrantes do Governo, do primeiro ou do segundo escalão. E Carlos Bolsonaro deveria voltar para o Rio de Janeiro, onde tem de trabalhar e não, receber seus salários, estando em São Paulo ou em Brasília.

[ D'Vox ]

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Cesar Mata é advogado e colunista do D'Vox, mora em São Paulo, Brasil. Você poder ler seus artigos no seu blog 'Atualidades'.

Notas:

[1] O não comparecimento a um convite para depor não acarreta quaisquer consequências, o não comparecimento a uma convocação pode determinar a condução coercitiva, ou até a prisão temporária, pelo tempo necessário para depor.

[2] Apelidado de Pitbull pelo próprio pai, foi o grande articulador na sua campanha eleitoral, nas redes sociais e quem, junto com o filósofo Olavo de Carvalho, teve papel de destaque na sua vitória.

[3] Carlos declarou que estivera do lado do pai o dia todo e que ele não falara, com o Ministro Gustavo Bebiano, uma só vez, disse isto numa rede e simultâneamente um vídeo em que o Ministro tentava falar com o Presidente e este dizia-lhe que não poderia falar com ninguém porque ainda tinha uns exames a fazer nesse dia.

[4] Diz-se de alguém que, no exercício de uma função, é subitamente posto de lado pelo chefe.

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