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Os eleitores de Bolsonaro não são fascistas nem homofóbicos, afirma acadêmico de esquerda

16.10.2018

 

É falso que o eleitor que fez de Jair Bolsonaro o candidato à Presidência mais votado no domingo 7 de outubro seja fascista, machista, homofóbico y racista. "Não, o Brasil não tem 47% de machistas, homofóbicos e racistas. Nós chamarmos os eleitores dele disso tudo não vai resolver nada, porque o xingamento não vai pegar. Seu eleitor médio não é nada disso. Ele só não quer mais que o país seja governado por um partido que tem um dono".

 

No meio da intensa e sistemática campanha de desqualificação contra o candidato do Partido Social Liberal e contra seus eleitores, rotulando-os depreciativamente com esses epítetos, as palavras que abrem este texto cobram um peso significativo, especialmente pela sua origem. Elas não foram escritas por um simpatizante de Bolsonaro ou por um observador neutro, mas por um professor universitário de filosofia que abertamente assume ser de esquerda.

 

"Não adianta chamar o eleitor do Bolsonaro de racista, quando esse eleitor é negro e decidiu que não vota nunca mais no Partido dos Trabalhadores (PT); não adianta falar que mulher não vota no Bolsonaro para a mulher que decidiu não votar no PT de jeito nenhum. [...] As mulheres votaram mais no Bolsonaro do que no Haddad, os negros votaram mais no Bolsonaro do que no Haddad, uma quantidade enorme de gays votou no Bolsonaro", constata.

 

E a faca entra mais profundamente: "O problema não é o eleitor do Bolsonaro. Somos nós, do grande campo das esquerdas. [...] Bolsonaro 'surgiu' daqui mesmo, da nossa incapacidade de fazer a necessária autocrítica, [...] a culpa do surgimiento dessa onda é nossa, exclusivamente nossa".

 

O autor é Gustavo Bertoche Guimarães, doutor em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e professor da Faculdade de Educação e Letras da Universidade do Iguaçu, no estado do Rio de Janeiro. A análise, apesar de não contemplar outros fatores de peso, é extraordinariamente lúcida em muitos aspectos e corajosa, é testemunhal, com traços de desabafo.

 

Foi publicado na sua página de Facebook no passado 9 de outubro; uma semana depois, o texto foi compartilhado por quase 20 mil pessoas, recebeu mais de 26 mil reações e quase mil comentários, criticas y elogios.

 

Bertoche assegura que o "campo da esquerda", e especialmente o PT, ficou preso em nomes intocáveis, mesmo quando demonstraram sua falibilidade, que foram silenciados os críticos da "vaca sagrada" - em clara referência ao ex-presidente Luiz Inácio 'Lula' da Silva, que adotou "o método mais podre de conquistar a maioria no congresso e nas assembleias legislativas, por ter preferido o poder à virtude ".

 

Ironicamente, ele questiona quem descreve Bolsonaro como "fascista" ou "nazista": "Desculpe-me amigo, mas piadas e frases idiotas não são Mein Kampf ... E não, não há uma disputa entre a barbárie e a civilização. O bárbaro não disputa eleições ".

 

E conclui: "o eleitor não votou no Bolsonaro porque ele disse coisas detestáveis, ele votou no Bolsonaro apesar disso, [...] foi o voto anti-esquerda, foi o voto anti-sistema, foi o voto anticorrupção".

 

Quem escreve, não é uma "grande figura", como Fernando Gabeira, que fez críticas e observações semelhantes na mesma semana, mas um daqueles milhares de "militantes" de a pé. E isso, talvez, pode ser um sinal de que a fratura na esquerda exposta por Gabeira chegou, também, "à base".

 

Leia a seguir o texto na íntegra:

 

De onde surgiu o Bolsonaro?

 

Desculpem os amigos, mas não é de um "machismo", de uma "homofobia" ou de um "racismo" do brasileiro. A imensa maioria dos eleitores do candidato do PSL não é machista, racista, homofóbica nem defende a tortura. A maioria deles nem mesmo é bolsonarista. 

 

O Bolsonaro surgiu daqui mesmo, do campo das esquerdas. Surgiu da nossa incapacidade de fazer a necessária autocrítica. Surgiu da recusa em conversar com o outro lado. Surgiu da insistência na ação estratégica em detrimento da ação comunicativa, o que nos levou a demonizar, sem tentar compreender, os que pensam e sentem de modo diferente. 

 

É, inclusive, o que estamos fazendo agora. O meu Facebook e o meu WhatsApp estão cheios de ataques aos "fascistas", àqueles que têm "mãos cheias de sangue", que são "machistas", "homofóbicos", "racistas". Só que o eleitor médio do Bolsonaro não é nada disso nem se identifica com essas pechas. As mulheres votaram mais no Bolsonaro do que no Haddad. Os negros votaram mais no Bolsonaro do que no Haddad. Uma quantidade enorme de gays votou no Bolsonaro. 

 

Amigos, estamos errando o alvo. O problema não é o eleitor do Bolsonaro. Somos nós, do grande campo das esquerdas.

 

O eleitor não votou no Bolsonaro porque ele disse coisas detestáveis. Ele votou no Bolsonaro apesar disso.

 

O voto no Bolsonaro, não nos iludamos, não foi o voto na direita: foi o voto anti-esquerda, foi o voto anti-sistema, foi o voto anti-corrupção. Na cabeça de muita gente (aqui e nos EUA, nas últimas eleições), o sistema, a corrupção e a esquerda estão ligados. O voto deles aqui foi o mesmo voto que elegeu o Trump lá. E os pecados da esquerda de lá são os pecados da esquerda daqui.

 

O Bolsonaro teve os votos que teve porque nós evitamos, a todo custo, olhar para os nossos erros e mudar a forma de fazer política. Ficamos presos a nomes intocáveis, mesmo quando demonstraram sua falibilidade. Adotamos o método mais podre de conquistar maioria no congresso e nas assembleias legislativas, por termos preferido o poder à virtude. Corrompemos os veículos de mídia com anúncios de empresas estatais até o ponto em que eles passaram a depender do Estado. E expulsamos, ou levamos ao ostracismo, todas as vozes críticas dentro da esquerda.

 

O que fizemos com o Cristóvão Buarque? O que fizemos com o Gabeira? O que fizemos com a Marina? O que fizemos com o Hélio Bicudo? O que fizemos com tantos outros menores do que eles?

 

Os que não concordavam com a nossa vaca sagrada, os que criticavam os métodos das cúpulas partidárias, foram calados ou tiveram que abandonar a esquerda para continuar tendo voz.

 

Enquanto isso, enganávamo-nos com os sucessos eleitorais, e nos tornamos um movimento da elite política. Perdemos a capacidade de nos comunicar com o povo, com as classes médias, com o cidadão que trabalha 10h por dia, e passamos a nos iludir com a crença na ideia de que toda mobilização popular deve ser estruturada de cima para baixo.

 

A própria decisão de lançar o Lula e o Haddad como candidatos mostra que não aprendemos nada com nossos erros - ou, o que é pior, que nem percebemos que estamos errando, e colocamos a culpa nos outros. Onde estão as convenções partidárias lindas dos anos 80? Onde estão as correntes e tendências lançando contra-pré-candidatos? Onde estão os debates internos? Quando foi que o partido passou a ter um dono? 

 

Em suma: as esquerdas envelheceram, enriqueceram e se esqueceram de suas origens. 

 

O que nos restou foi a criação de slogans que repetimos e repetimos até que passamos a acreditar neles. Só que esses slogans não pegam no povo, porque não correspondem ao que o povo vivencia. Não adianta chamar o eleitor do Bolsonaro de racista, quando esse eleitor é negro e decidiu que não vota nunca mais no PT. Não adianta falar que mulher não vota no Bolsonaro para a mulher que decidiu não votar no PT de jeito nenhum.

 

Não, amigos, o Brasil não tem 47% de machistas, homofóbicos e racistas. Nós chamarmos os eleitores do Bolsonaro disso tudo não vai resolver nada, porque o xingamento não vai pegar. O eleitor médio do cara não é nada disso. Ele só não quer mais que o país seja governado por um partido que tem um dono.

 

E não, não está havendo uma disputa entre barbárie e civilização. O bárbaro não disputa eleições. (Ah, o Hitler disputou etc. Você já leu o Mein Kampf? Eu já. Está tudo lá, já em 1925. Desculpe, amigo, mas piadas e frases imbecis não são o Mein Kampf. Onde está a sua capacidade hermenêutica?). 

 

Está havendo uma onda Bolsonaro, mas poderia ser uma onda de qualquer outro candidato anti-PT. Eu suspeito que o Bolsonaro só surfa nessa onda sozinho porque é o mais antipetista de todos.

 

E a culpa dessa onda ter surgido é nossa, exclusivamente nossa. Não somente é nossa, como continuará sendo até que consigamos fazer uma verdadeira autocrítica e trazer de volta para nosso campo (e para os nossos partidos) uma prática verdadeiramente democrática, que é algo que perdemos há mais de vinte anos. Falamos tanto na defesa da democracia, mas não praticamos a democracia em nossa própria casa. Será que nós esquecemos o seu significado e transformamos também a democracia em um mero slogan político, em que o que é nosso é automaticamente democrático e o que é do outro é automaticamente fascista?

 

É hora de utilizar menos as vísceras e mais o cérebro, amigos. E slogans falam à bile, não à razão.

 

[ D'Vox ]

 

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