O narcotráfico marca o 'boom' de assassinatos de ativistas sociais na Colômbia


Uma longa fila de colombianos violentamente assassinados é parte da triste herança de 'paz' que o presidente Juan Manuel Santos deixa para seus compatriotas a pouco menos de um mês de entregar o cargo nas mãos de Ivan Duque.

Há divergências a respeito do número exato de corpos sem vida que se amontoam dia sim, dia não, como saldo negro – ou vermelho? – para o homem que ganhou um prêmio Nobel por haver construído um impopular acordo de anistia para as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

É fato que, desde a assinatura do Acordo de Havana, em setembro de 2016, centenas de pessoas foram 'liquidadas': entre 178 e 322 vítimas, dependendo de quem faça a contagem, que está aberta.

Santos prometeu a paz, mas a guerra interna continua e há dois denominadores comuns nessa ampla lista de sangue. O primeiro trata-se de colombianos que podem ser denominados como 'defensores dos direitos humanos'.

O segundo é que em quase todos os casos há uma 'impressão digital' precisa: o narcotráfico. Não porque as vítimas estejam vinculadas a essa atividade delitiva – ainda que algumas sim, embora não pareça ser a maioria – mas porque os assassinos são narcotraficantes ou membros de grupos criminosos relacionados ao tráfico.

Além disso, o 'mapa' que aponta os municípios de execução é praticamente o mesmo dos corredores de zonas de cultivo e tráfico de narcóticos, ou de outras atividades derivadas.

Os números

Há quase dois anos depois de assinar a polêmica anistia com as FARC, a paz prometida pelo presidente Santos se fez de forma progressiva. Aparentemente desmobilizou a guerrilha, mas a violência continua nas antigas zonas de conflito.

De acordo com a Defensoria do Povo, de 26 de setembro de 2017 a 10 de julho de 2018 foram assassinados 322 colombianos 'defensores dos direitos humanos'. É a maior contagem.

O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz (Indepaz) registra 273 vítimas até o dia 5 de julho e o programa não governamental Somos Defensores, 232.

O governo reconhece apenas 178 mortes até 22 de junho, número proposto pela Organização das Nações Unidas (ONU). É a contagem mais baixa.

Se tomarmos em conta os dados da Defensoria, estamos falando em uma média de um assassinato a cada dois dias: 134 em 2016, 126 em 2017 e 62 em 2018, até agora.

Se considerarmos o registro do governo, um morto a cada quatro dias; quase dois por semana. De qualquer forma, é um rio de sangue.

Mas o quadro se agrava se considerarmos que os assassinatos têm se intensificado neste ano, segundo o Indepaz: 123 'executados' de 1º de janeiro a 5 de julho. Quase um por dia. A Defensoria publicou em março de 2017 um Informe Especial de Risco no qual alertava às autoridades governamentais do problema, e um Aviso Antecipado (AT 26-18), no dia 28 de fevereiro deste ano.

O último documento afirma categoricamente que a administração de Santos fez caso omisso das recomendações propostas no informe de 2017 e que tal atitude agravou o problema.

As vítimas e o narcotráfico

De acordo com os dados oferecidos por um dossiê especial preparado pelo Indepaz, denominado 'Todos os Nomes – Todos os Rostos' a maioria das vítimas deste ano são homens, oito em cada dez, e a mesma proporção era parte de organizações camponesas, comunais, indígenas ou de afrodescendentes. Quase 90% são de zonas rurais ou semirrurais. As porcentagens são similares às que apresentam os informes da Defensoria.

No entanto, o documento do Indepaz sugere que apenas uma parcela muito pequena das execuções tenha a ver com o cultivo e tráfico de drogas: 13%. A maioria, 83%, se relacionaria a conflitos por terra, território e recursos naturais.

Além de incluir 33 supostos ex-guerrilheiros e cinco de seus familiares, aos quais lhes tinha sido tirada a vida por não contar com a proteção exigida pelo acordo de paz.

Para esta entidade, os responsáveis são fundamentalmente os grupos 'paramilitares' que estariam vinculados às 'oligarquias' de direita, o Exército da Libertação Nacional (ELN) e alguns pequenos "grupos residuais" das FARC.

No entanto, a realidade sobre os motivos e os executores do 'banho' de sangue parece ser outra. O Aviso Antecipado 26-18 da Defensoria reconhece abertamente a "pré-existência e permanência do conflito armado interno" apesar do chamado Acordo de Paz.

E aponta como causas do "cenário de risco nacional" a expansão da atividade criminosa do ELN, a intensa atividade das dissidências das FARC, o confronto entre estes dois grupos, e a consolidação de outros grupos armados depois dos tratados, entre os que estão alguns grupos paramilitares.

Tanto o ELN, como os supostos 'dissidentes' das FARC e os grupos 'paramilitares' apontados, todos, sem exceção, realizam atividades de narcotráfico.

O mapa manchado de sangue dos crimes contra 'defensores dos direitos humanos' é o mesmo mapa do tráfico de narcóticos na Colômbia.

E os assassinatos por "conflitos de terra, território e recursos naturais" que assegura o Indepaz são oito em cada dez, e acontecem em zonas onde, quando não se semeia coca, são corredores ou zonas estratégicas para o tráfico de narcóticos.

Os homicídios deste ano, por exemplo, foram cometidos em 73 municípios localizados em 24 departamentos do país. 67% dos crimes se concentra em 7 departamentos: Cauca, Antioquia, Norte de Santander, Valle del Cauca, Córdoba, Nariño e Arauca.

Desta lista Nariño, Cauca, Valle del Cauca, Córdoba e Norte de Santander são regiões onde se planta coca, em todos eles agiam as FARC e continuam atuando seus 'dissidentes'.

O caso de Antioquia é diferente. Ali atuam as Autodefesas Gaitanistas da Colômbia que iniciaram como grupo 'paramilitar' e hoje são mais conhecidos como o Clã do Golfo. Alguns indícios apontam que em alguns casos se trata de acertos de contas.

Acerto de contas ou pedras no sapato.

Para escrever este texto, tomei uma pequena amostra de 30 nomes da lista de 322 vítimas elencadas pela Defensoria e verifiquei a causa da morte em arquivos policiais. Os resultados são significativos, ainda que não cheguem a uma conclusão. Desses trinta nomes, dois têm vínculo direto com o tráfico, segundo as autoridades.

Ana María Cortés era líder comunitária de Cáceres, no Cauca antioqueno, e foi secretária da campanha local do ex-candidato presidencial Gustavo Petro. De acordo com o fiscal general Néstor Humberto Martínez os autores do crime são membros da gangue criminosa 'Los Caparrapos', dissidente do Clã do Golfo.

"Na prova técnica que temos 'Los Caparrapos' acusavam a senhora, que foi objeto deste assassinato, de ser uma prestadora de serviços, identificando movimentos na entrada do município de Cáceres", revelou o fiscal. Ou seja, Cortés – líder comunal – poderia ser uma das pessoas que informavam ao Clã do Golfo se desconhecidos ou autoridades entravam na zona.

Outro nome: Jefferson Leandro Sánches, apelidado de 'Andrés Sanchez' ou 'Carro maluco', suposto ex-membro das FARC assassinado em Argélia, no departamento de Cauca, pelo ELN, junto com outras seis pessoas. De acordo com o general Jorge Herrera, comandante da brigada 29, Sánchez era o cabeça de um núcleo vinculado ao tráfico de drogas, como outros dos assassinados, e cujos nomes aparecem na lista de 'defensores dos direitos humanos'.

Quantos dos 55 'ex-membros' da FARC que estão na lista de vítimas do Indepaz estão na mesma situação?

A amostra também evidenciou outro resultado singular: pessoas que perderam a vida por assuntos alheios à defesa de garantias fundamentais.

Klaus Stiven Zapata Castañeda, líder comunitário de Soacha, o segundo município mais populoso do departamento de Cundinamarca, e que militava – não era líder – na organização de esquerda Marcha Patriótica. Morreu em uma briga por uma partida de futebol. O agressor foi preso e condenado.

Ou como três membros de organizações LGBT: Árvinson Flórez González e Eugenio Gil Acosta, assassinados por desavenças pessoais e Samir López, que perdeu a vida em um assalto.

A própria definição de 'defensores de direitos humanos' dada pela Defensoria do Povo contribui para que esses nomes apareçam: "as defensoras e defensores de direitos humanos são pessoas que promovem ou procuram qualquer forma de realização dos direitos humanos e das liberdades fundamentais".

O critério identificador alcança pessoas que lideram ou colaboram com causas "comunais, indígenas, de afrodescendentes, camponeses, sociais, sindicais, de população com orientação sexual e identidade de gênero diversa, ambientais, sem-terras, [militantes dos direitos] das mulheres, jovens, estudantes" e um longo etcétera.

Esclareço: estes casos explicam os números tão elevados de algumas entidades, mas não colocam em dúvida que a maioria das vítimas realiza um trabalho de reinvindicação de garantias.

Alguns – como parece – têm um vínculo claro com o narcotráfico, outros – ao parecer da maioria – são pedras no sapato de organizações criminosas de diversos tipos por oporem-se abertamente às suas feitorias ou por negarem-se a colaborar. Entre as organizações, além da ELN, cartéis de droga e grupos paramilitares, também estão dissidentes das FARC.

Até onde as FARC estão comprometidas a desmontar sua rede narcoterrorista? São realmente 'dissidentes' os que não aceitaram os acordos ou criaram apenas enclaves estratégicos que não pretendem entregar? Durante os cinco anos de negociações, os cultivos de coca passaram de 70 mil a 200 mil hectares.

A prisão de Marlon Marín, sobrinho de Iván Márquez, o número dois das FARC, e de Zeuxis Pausias Hernández Solarte, apelidado de 'Jesús Santrich', um membro do alto comando, por parte da DEA em abril deste ano, é uma amostra de que continuam atuando no negócio.

São acusados de negociar com o Cartel de Sinaloa, do México, o envio aos Estados Unidos de 10 toneladas de cocaína e a Fiscalização de Nova York assegura que conta com "provas robustas" que demonstram que o ato ilícito foi cometido em junho de 2017, ou seja, apenas seis meses depois da entrada em vigor do Acordo de Havana.

O tráfico é o combustível das FARC e seu intenso reforço é parte da herança que Santos deixa aos colombianos junto com a longa fila de cadáveres da qual aqui temos tratado graças a uma suspeitosa omissão que é denunciada por todos, da esquerda à direita.

[ D'Vox ]

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