'Já mostramos que podemos vencer' diz Lula ao Foro de São Paulo


O ex-presidente brasileiro Luiz Inácio 'Lula' da Silva, atualmente preso por corrupção e lavagem de dinheiro, enviou uma mensagem clara aos participantes do XXIV encontro do Foro de São Paulo (FSP): nos anos noventa tínhamos uma situação similar à atual, já mostramos que a esquerda pode vencer, vamos nos unir e fazer de novo.

Estas ideias do cofundador do FSP foram apresentadas por meio de um vídeo de cinco minutos com imagens das ações que o Partido dos Trabalhadores (PT) tem realizado para pedir sua liberdade e lido não por ele, mas por um terceiro, em língua espanhola.

Lula agradeceu o apoio que os membros do Foro lhe deram ante a "perseguição política" que diz sofrer por parte da "direita", que "não sabe conviver com a democracia", que segundo ele, através do poder judicial quer impedir-lhe de "voltar ao governo e recuperar a dignidade, a liberdade e os direitos do povo".

O ex-presidente destacou que o FSP, criado por ele e por Fidel Castro em 1990, surgiu em um contexto semelhante ao atual, com o aparecimento do neoliberalismo na economia e na política, mas no fim dos regimes do socialismo real e da bipolaridade do sistema internacional.

"Quando Fidel e eu propusemos que a esquerda latino-americana deveria reunir-se para analisar as profundas transformações que vivíamos [...] tínhamos clara a importância da iniciativa" que se converteu no "mais importante, amplo e duradouro fórum de debates e formulações da esquerda ao longo destes 28 anos" e conseguiu que seus membros governassem vários países da região.

Assegurou que as mudanças geradas por essas administrações 'progressistas' incomodaram profundamente a uma elite que "não tolera a esquerda no governo, nem a 'ascensão' do povo excluído a seus direitos mínimos como alimentação, saúde, educação e moradia". Por isso – disse – executaram 'golpes de estado' em Honduras, no Paraguai e no Brasil.

"Eu sempre disse que se querem disputar conosco, que o façam politicamente, que nos derrotem democraticamente, que seja o povo que decida, mas eles têm medo de nós", afirmou.

O ex-sindicalista também repudiou as sanções 'criminosas' aplicadas contra a Venezuela e a continuidade do bloqueio sofrido por Cuba.

E lançou um chamado: "as dificuldades que enfrentamos hoje requerem, mais do que nunca, a presença, posições e ações do Foro de São Paulo, [...] e um elemento essencial neste momento é a unidade da esquerda neste enfrentamento político com as elites reacionárias, entreguistas e intolerantes da América Latina".

"Quando iniciamos esta tarefa ninguém disse que seria fácil, mas já mostramos que podemos vencer", pontuou.

O vídeo conclui com a mesma vitimização que inicia: "quero reafirmar minha inconformidade por estar impedido de apresentar esta mensagem pessoalmente devido à perseguição política à qual estou submetido por uma condenação absurda e kafkiana por um crime que não existe. Querem impedir-me de disputar as eleições no Brasil este ano, mas jamais me calarão e tampouco me impedirão de lutar pelos direitos do povo brasileiro, e latino-americano e caribenho".

Cinco comentários a respeito da mensagem:

1. O cofundador do Foro de São Paulo tem aqui um discurso 'vermelho', socialista, que não é o mesmo que lhe levou ao poder em 2002 e em 2006. Aquele era o 'Lulinha paz e amor' que lançou a Carta ao Povo Brasileiro, que acalmou aos mercados e terminou o pacto com as elites. Este de agora é o 'Lula' do Foro de São Paulo, do PT que hoje é oposição. Qual é o verdadeiro?

2. Sua dura critica às 'elites' que não suportam 'a esquerda no governo' não passa de mera hipocrisia. Seus oito anos de governo no Brasil se desenvolveram e uma clara aliança com as elites econômicas do país. Os maiores beneficiados de suas administrações foram os banqueiros ou as megaconstrutoras como a Odebrecht, com quem realizou negócios para obter lucros ilícitos.

3. A narrativa da 'perseguição' e do 'golpe' são insustentáveis. Basta ver a documentação dos processos judiciais. Ele assegura que "não há uma viva alma mais honesta" que a sua, e, no entanto, na época do escândalo do 'Mensalão' (a compra de votos de parlamentares através de uma 'mesada'), se comprovou que foram seus dois homens de confiança dentro do governo e a própria cúpula do PT que negociava e pagava, mas ele dizia não saber de nada.

Agora está preso por aceitar a reforma de um apartamento triplex e de um sítio no interior de São Paulo feitas pela onipresente Odebrecht, patrimônios não declarados, e ainda tem abertos outros sete processos por obstrução da justiça, desvio de recursos da estatal Petrobras, associação criminosa, tráfico de influências, corrupção e lavagem de dinheiro. Também é investigado pelo enriquecimento inexplicável de seu filho, Fábio Luiz 'Lula' da Silva, o "Lulinha".

Durante um julgamento, quando tentou explicar ante o juiz Sérgio Moro qual é o montante de seu salário mensal, disse: "São seis e pouco (mil reais) de aposentadoria, mais os 20 (mil reais) que minha mulher recebia, que passou 'pra' 30 (mil reais), mas ela não recebeu nenhum de 30 (mil reais) porque morreu antes. Pode dar 30 mil, mas tem mais porque tem doação para os meus filhos... poderia chegar a quanto... 50 mil. Eu não sei, eu 'tô' tentando chutar aqui, doutor", disse Lula.

4. Quando Lula, com belas palavras, fala de defender os 'direitos sociais' do povo, há que se recordar que foi durante seus oito anos de governo e durante um mandato e meio de sua sucessora, Dilma Rousseff, que se implantou no Brasil uma agressiva política de engenharia social que permitiu o avanço das agendas abortista, LGBT e de gênero no país. A nada democrática imposição das agendas de minorias sobre as maiorias.

5. Contudo, deixando de lado a retórica vitimista, a mensagem de fundo que envia o cofundador do Foro e o que se deve notar é esta: nos anos noventa, quando o FSP foi fundado, a esquerda tinha uma situação similar à atual, 'nos unimos e vencemos. Vamos nos unir agora e fazer de novo'. Todo um programa de ação.

Lula não é o único a dizê-lo. Evo Morales, também presente no encontro, ao chegar à ilha disse que vinha para participar do 'relançamento'' do FSP. Acompanhemos.

[ D'Vox ]

Términos del Servicio | Política de Privacidad

CR| opn: