O novo cenário político mexicano

11.07.2018

 

 

 

Mochila Política 49  | O triunfo de Andrés Manuel López Obrador na eleição presidencial mexicana é resultado do rearranjo de diversos grupos de poder em vários níveis e espaços, e esta nova junção foi construída de forma paralela à derrubada do atual regime.

 

Antecedentes

 

No ano 2000, com a chegada de Vicente Fox na Presidência da República do México, iniciou a um proceso de redemocratização no pais que rompeu o molde do velho sistema caracterizado pelo binômio 'Partido Revolucionario Institucional (PRI) - Governo' e onde o Presidente era uma peça fundamental para o equilíbrio e a interação das forças que integravam a chamada 'Família Revolucionária', e de outros protagonistas ao redor.

 

A Família Revolucionária, integrada pelos grandes caciques que dividiam o poder por trás do PRI e que tinham dominado durante 70 anos, começou a fragmentar-se. A alternancia na Presidencia tornou-se uma realidade e surgiram vários ‘nós de poder’ formados local, regional ou nacionalmente, de acordo com suas forças e objetivos. Um exemplo clássico foram os 'nós' em torno dos governadores: muitos deles repetiram o velho modelo.

 

Um fenômeno mais complexo, porém similar, foi a fragmentação dos grupos do narcotráfico. Conforme se romperam as instâncias de controle criadas pelo próprio sistema (a Procuradoria Geral da República e a Direção Federal de Segurança, por exemplo), deu-se a alternância nos três níveis e cresceu a corrupção, emergiram os novos grupos locais fora dos grandes grupos, como acontece hoje em muitos lugares.

 

Ou seja, o poder se fragmentou de todos os lados.

 

Quando chegou ao poder um opositor a esse velho sistema, o Partido Ação Nacional (PAN), e a alternância se concretizou, gerou uma grande expectativa de mudança, mas ao fim de dois sexênios – de Vicente Fox e Felipe Calderón – os resultados provocaram uma profunda frustração.

 

Esse sentimento generalizado abriu as portas para o retorno do PRI, com o 'grupo' do estado do México - um dos mais corruptos - e seu candidato Enrique Peña Nieto. Com caras novas, eles tentaram 'refazer' o velho sistema.

 

O gradual e consistente fracasso deste governo foi gerando condições para realinhamentos cujo resultado é agora a chegada ao poder de um grupo de ‘liberais revolucionários’, que no século passado atuaram no velho sistema levantando a bandeira do nacionalismo revolucionário como sua ideologia.

 

Rearranjos e alinhamentos

 

 

Em um sistema democrático as eleições são o cenário configurado por um jogo de poderes atuantes na sociedade e no interior dos partidos, e seus resultados marcam sempre o grau de legitimação aos vencedores.

 

Em 1º de julho houve uma claríssima mudança no grupo de poder legitimado por uma contundente maioria nas urnas. Vejamos alguns fatores chave que podem explicar este relevo.

 

O governo de Enrique Peña Nieto iniciou rápidamente o seu declínio, produto de sua incapacidade e corrupção.

 

A partir de 2012 até dezembro de 2017, o PRI perdeu mais de 4 milhões de votos. Ivonne Ortega, ex-governadora de Yucatán, assegura que são mais: 4,7 milhões de votos. O PRI governa 13 entidades, cujo peso político e econômico é menor. Nessas eleições não ganhou nenhum governo e nem prefeitura de município relevante.

 

Para todas as derrotas de seus candidatos, o fator que mais pesou foi a impopularidade do Presidente Peña Nieto, que tem uma aprovação muito baixa, nas vésperas das eleições deste ano, apenas 2 em cada 10 mexicanos o apoia.

 

Os pleitos de grupos no interior do sistema tiveram uma de suas máximas exibições com as eleições estaduais de 2017, nas quais as disputas entre dos homens poderosos do 'velho sistema', Manlio Fabio Beltrones, então líder do PRI, e Miguel Ángel Osorio Chong, na época Secretário de Governação, deram como resultado derrotas do tricolor, e abriram passo a vitórias de grupos do mesmo sistema mas arropados por outras alianças.

 

Olhando em retrospectiva, o caso de Durango torna-se paradigmático. Um candidato saído do PRI contende sob as siglas do conservador PAN e do esquerdista Partido da Revolução Democrática (PRD), unidos em coalizão, ganha e governa com os antigos grupos do priismo.

 

No fundo foi se construindo pouco a pouco um pacto profundo de reagrupamento e manutenção entre nós de poder político. A partir daí, outos núcleos de poder econômico ou de impunidade foram se alinhando.

 

O Movimento Regeneração Nacional (Morena) é produto desse cenário. Surge em 2014 como uma força política cuja incidencia afeta inicialmente ao PRD; recolhe todo o tipo de inconformidades no território nacional e sua estrutura se nutre em vários estados de priistas que migraram para a nova sigla.

 

Alguns analistas, como Ricardo Pascoe Pierce, sustentam que estamos diante de uma adaptação quase mítica ou proverbial do PRI, em um acordo de López Obrador com o grupo do ex-presidente Ernesto Zedillo. Mas não seria o único, também estaria aliado ao grupo do ex-presidente Carlos Salinas, mesmo que a aliança mais forte seja a primeira.

 

A aparição de personagens emergentes durante o mandato de Zedillo, hoje ao lado de López Obrador, é um dos seus argumentos, e enumera Olga Sánchez Cordero, Manuel Bartlett e Esteban Moctezuma Barragán.

 

Todo o ataque contra Ricardo Anaya usando a Procuradoria Geral da Republica (ao iniciar uma operação de desprestigio em plena campanha eleitoral) é da fração salinista do PRI, para tentar colocar ao candidato priista, José Antonio Meade, em segundo lugar na intenção de voto e ter um espaço maior de negociação com o Morena, que hoje seria de Ernesto Zedillo, e não de López Obrador, de acordo com Pascoe.

 

É um pacto para reconciliação entre Zedillo e Carlos Salinas de Gortari, sustenta Pascoe como conclusão de sua hipótese.

 

A hipótese de Pascoe tem certa coerência, mas não estão visíveis os todos os pontos principais deste suposto pacto dos velhos grupos da chamada família revolucionária. O grupo 'zedillista' em torno a Lopez Obrador é um fato, mas isso não necessariamente torna Morena 'propriedade' de Zedillo. Torna visível a aliança mas não seus termos.

 

O que foi visível durante os últimos meses do ano pasado é que ao menos dois grupos maçônicos desenvolveram estratégias desde o interior da Aliança PAN-PRD-MC (Movimento Cidadão) para impulsionar a Rafael Moreno Valle e a Miguel Ángel Mancera para disputar com Ricardo Anaya a candidatura presidencial (veja a Mochila Política 18 y 19 'El Frente, un dardo envenenado I y II', do 29 de junho e do 04 de julho de 2017, respectivamente).

 

A divisão no interior do PAN e o choque de ambições entre Anaya e o expresidente Felipe Calderón e sua esposa Margarita Zavala, que aspirava a ser candidata do PAN, facilitaram esse trabalho.

 

Finalmente, Ricardo Anaya terminou sob um escárnio público por suposta corrupção e se entregou a grupos ‘progressistas’ con vínculo maçônico, por isso sua proximidade com Jorge Castañeda, Rubén Aguilar e Santiago Creel.

 

A única opção de um candidato que levantasse a bandeira do humanismo cristão se desfez, o PAN se dividiu, perdeu força e serviu apenas para dar vida a um partido liberal como o Movimento Cidadão (MC). Em muitos lugares, este último conseguiu vitórias graças aos votos a favor da Ação Nacional. Jalisco é um bom exemplo disso, onde o PAN foi muito bem votado para o Senado, mas os que lá chegaram são os do MC, graças à aliança.

 

Conclusões

 

 

Andrés Manuel López Obrador, identificado popularmente como um político de 'esquerda', na realidade é - como diria o esquerdista Jesús Ortega - um 'liberal revolucionário', ou seja, um homem que militou no PRI dentro dessa ala de populistas da esquerda que existia em seu interior, que depois fundaram o PRD.

 

Agora chega ao poder por meio de um acordo com distintos protagonistas do poder de diversos níveis. A formação de seu gabinete, algumas candidaturas e alguns posicionamentos durante a campanha, refletem um pouco disso.

 

Em sua equipe há zedillistas, mas também há personagens como Miguel Torruco consogro do milionário Carlos Slim; ou Marcos Fastlicht, sogro de Emilio Azcárraga Jean, presidente da Televisa; conta também com o apóio da TV Azteca; outros respaldos corporativos são evidenciados com a incorporação dos 'sindicalistas' Napoleón Gómez Urrutia ou Elba Esther Gordillo. Ou seja, boa parte do establishment.

 

Está também integrada Nestora Salgado, proveniente de grupos armados de 'autodefesa' que atuavam em Guerrero sob uma legislação inacabada e que pelo amparo da mesma cometem delitos e são politicamente apoiados por todos os grupos radicais de esquerda nacionais e internacionais.

 

Também está José Manuel Mireles, um maçom ativo que atua em grupos de autodefesa e que inicialmente se aliou ao priista Miguel Ángel Osorio Chong quando era Secretário de Governação, mas quando o funcionario o traiu foi para o lado de López Obrador. O próprio Mireles contou publicamente a traição de Osorio Chong. Mireles não conseguiu ser eleito deputado, mas mostrou publicamente sua lealdade ao líder do Morena.

 

Além disso, a frente mais visível do Morena é composta por esse emaranhado de líderes e organizações de ‘esquerda ideológica, militante e reivindicadora’ que é, por si mesma, uma vasta 'fauna' nesse 'ecossistema' que é o novo partido hegemônico no México. Ali encontramos o progressismo na sua totalidade: desde feministas radicais a teólogos da libertação.

 

O Morena é produto de um rearranjo de diversos grupos de poder, e talvez isso explique que em apenas quatro anos, em um fato inédito no país, tivesse a força necessária para conquistar a presidência e o Congresso com a legitimação de um dos mais altos números de votos obtidos por um partido na nossa história.

 

Também é evidente que teceu, com Peña Nieto, um acordo de impunidade.

 

Fica para o registro o discurso de José Antonio Meade em seu fechamento de campanha em Coahuila, no qual assinalou as diferenças no interior do sistema: “A história vai julgar aqueles que, reconhecendo o risco da alternativa autoritária e antidemocrática de Andrés Manuel, o elegeram. Um Andrés Manuel que ameaça a todos, ameaça à Suprema Corte de Justiça, ameaça às forças armadas, ameaça às famílias de pôr os marginais nas ruas... e ameaça ‘sacar tigres e diabos’ (expressão que significa sacar às ruas a revolta popular violenta caso não ganhe)”, disse.

 

O Morena parece hoje o reagrupamento de antigos e novos protagonistas querendo reconfigurar o sistema. Após a fragmentação do velho sistema temos um presidente forte e um novo partido hegemônico. Mas também pode ser outra coisa: o nascimento de um sistema totalmente novo. Somente os fatos confirmarão progressivamente o que será.

 

López Obrador, que soube conquistar o desejo de mudança , chega legitimado, com maioria absoluta, ante uma expectativa nacional muito alta e difícil de cumprir. Diante do novo cenário, com um presidente com tanto poder real (Congresso Federal com maioria absoluta e com maioria em mais da metade dos Estados do país), a organização cidadã se converte na única possibilidade de contrapeso efetivo para evitar abusos de poder e políticas contrárias ao bem comum.


Mais que os partidos, são os cidadãos os que para tentar frear uma eventual agenda radical terão que se converter em interlocutores reais e eficazes do Presidente, recordando a ele uma frase de sua campanha: “Eu me ajoelho onde se ajoelha o povo”.

[ D'Vox ]

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Héctor Moreno Valencia é jornalista e consultor. Trabalhou na agência Notimex e no Grupo Reforma onde fundou o jornal Mural, do qual é colaborador. É autor de vários livros, entre eles, Sangre de Mayo - El homicidio del Cardenal Posadas, com a coautoria de Alberto Villasana, e é editor do serviço de análises Mochila Política *.

 

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